Refugio dos Sonhos

I Parte
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Vinte
de Dezembro,
o frio lá fora está de arrasar, estamos perto da Serra da Estrela,
numa aldeiazinha do interior e casas tinha poucas esta pequena aldeia,
no centro um grande largo, ocupado com uma grande fonte, onde a água
corre noite e dia. À volta dessa fonte há uns banquinhos de pedra,
gelados, mas as pessoas dessa aldeia não sentem o gelo da pedra, porque
quando ali vão, em vez do gelo dos bancos, encontram o calor humano de
seus vizinhos. Elas vão aquele largo para ocuparem o vazio que a solidão
lhes deixa nas suas vidas, sabem que nesses banquinhos encontram alguém
que as espera para dar dois dedos de conversa. Ali encontram amizade,
solidariedade e uma forma agradável de reviver o passado com os amigos.
À
volta desse largo existem umas lojas, onde se podem encontrar artigos
oriundos da Serra da Estrela, que os comerciantes se deliciam em mostrar
aos visitantes, fazendo todas as tentativas para eles algo levarem como
recordação e assim levaram a vida. Ao
fundo desse largo havia outro ponto de encontro da gente dessa aldeia,
uma pequena Igreja, toda pintada de branco, cuidada com muito carinho,
rodeada dum jardim de flores, plantadas com amor, regadas com a paixão
das pessoas, para que o seu cheiro e a sua beleza enfeite essa Igreja,
lugar que lhes transmite, paz, sossego, próprio dum local de oração. Nessa
pequena aldeia, vive a Maria e sua família, tia e primos, a sua família
adoptiva após a morte dos seus pais, num acidente de carro, no momento
em que a Maria mais precisava deles, na idade em que as dúvidas
assaltam a sua mente, na idade em que começam os porquês: Quem
sou eu? Os porquês sobre a infância, o seu corpo, a sua sexualidade, a
sua vida social, na idade em que os sentimentos brotam em fluxo, sem
pensar, nem medir consequências, na hora que um conselho duma mãe vale
por trinta presenças amigas. Ela ficou só, sem ninguém, mas a sua
tia, que vivia nesta aldeia, a veio buscar após o funeral, pois sempre
era da família e sendo eles os únicos parentes da menor, não podiam
nem queriam que fosse abandonada à má sorte numa instituição
qualquer e levaram-na para junto dos seus, para a proteger e lá, a
Maria, ficou a viver com eles, mas a sua vontade estava paralisada, não
se apercebeu que saindo dali, perdia algo, algo que não tinha, mas que
no seu coração sabia ser seu, o Pedro, o rapaz que ajudava seu pai na
lojinha da esquina da rua principal da aldeia, junto ao jardim
municipal, o rapaz que punha o seu coração a saltitar , o rapaz que
fazia a Maria arranjar sempre algo para comprar só para o poder ver, o
sentir sem o tocar e olhar para ele sem ele se aperceber, só que a
Maria não sabia que ele sentia o mesmo que ela, mas a sua timidez não
o deixava demonstrar.
Mas
como tudo na vida tem um fim, os seus encontros acabaram com a ida da
Maria para essa aldeia da Covilhã, sem que disso se apercebesse, tal
era a dor da perda dos seus pais, ela não sabia que a sua vida se ia
transformar, a sua família iria ser outra, apenas sabia que estava
sendo arrastada pelo infortúnio, mas isso já foi há muitos anos e
hoje é dia de alegria na família, porque o noivado da sua prima Joana,
a sua melhor amiga, esta a chegar ao fim, sendo o casamento na véspera
do Natal. Lá
fora viam-se as crianças a brincarem na neve, a alegria estampadas nos
seus rostos faziam a Maria recordar a sua infância, onde feliz ela
brincava com os seus pais, os seus amiguinhos, as brincadeiras no mar, a
correria da sua mãe sempre atrás de si, porque ela era uma criança
rebelde, mimada, mas feliz, meiga, tinha o mundo a seus pés, esse mundo
que lhe fugiu de um momento para outro, esse mundo que ruiu com a perda
dos seus pais, com o afastamento do seu amor "o Pedro" e hoje
com a casamento de sua prima, com a saída dela lá de casa , essas
lembranças da sua infância e adolescência vieram-lhe à mente e tudo
isso a deixou triste, estranha. Algo
se começou a desenvolver dentro dela, como um chamativo e dos livros
que ela leu ao longo dos anos chegavam à sua memória os livros que
falavam em grandes amores, livros que descreviam o mar, as ondas, os
seus efeitos psicológicos no ser humano, livros que a acompanharam
durante todos estes anos e que a fizeram sonhar, mas já não bastavam
para a sua alma inquieta, alma sedenta de carinhos, alma que cada dia se
sentia mais atraída pelo mar. A
Maria começou a viver num desassossego sem limites, a sua tristeza já
se reflectia no seu rosto, no seu andar, nas suas palavras, os seus
primos, a sua tia, os seus amigos já não a satisfaziam, já nada lhes
dizia, pois a sua alma estava longe, os seus sonhos estavam longe, ela
vivia com o Pedro no seu pensamento, mas um viver de desilusão, porque
sabia que jamais o voltaria a encontrar e ela não queria ninguém. Os
rapazes da aldeia convidavam-na para sair e ela sempre, mas amavelmente,
recusava, ela fechava-se nos seus sonhos, nas suas ilusões mas....
-
Acorda Maria -
Disse a sua tia com um suave toque no seu ombro. -
Desculpa tia Sofia, estava longe
- Respondeu com um sorriso tímido que aflorou os seus lábios. -
Rapariga, deixa de sonhar, vem ajudar a tua prima nos preparativos para
a festa do casamento, deixa os teus sonhos para outro dia.
- Replicou a tia com ar muito alegre. A
Maria olhou a sua tia fixamente e viu essa mulher de cinquenta e oito
anos que apesar dos trabalhos pesados a que a vida a sujeitou, tinha um
rosto sempre alegre, uma palavra de amor para todos quanto a rodeavam,
um gesto de carinho para a Maria que nem sua filha era, nem parecia uma
mulher que perdera o seu marido ainda cedo e teve que dedicar a sua vida
a trabalhar sozinha, para criar e dar uma educação razoável aos seus
três filhos pequenos, não bastando isso, ainda teve que criar a sua
sobrinha menor ( a Maria), essa mulher frágil, vestida com roupas
negras, essa mulher de aspecto frágil, mas com força duma leoa que
tudo fez para criar e salvar as suas crias e enquanto pensava nisso, a
Maria agarrou a cintura da tia e foram, a tia com um ar feliz e ela com
uma sombra no olhar, mas foi mostrando uma felicidade que estava longe
de a sentir e trabalhou o dia todo, sempre com um sorriso nos lábios,
como se do seu casamento se tratasse. Seis
horas da manhã ouviram-se no relógio da torre da pequena igreja, uma
após outra, intuam serra dentro e antes da última badalada, a Maria
acordou sobressaltada pensando que já era tarde. tinha chegado o grande
dia, eram seis da manhã e levantou-se de imediato e a correr foi ao
quarto da prima. -
Joana, acorda Joana
- Sussurra a Maria, passando-lhe as mãos por seu rosto angélico, que
sorria mesmo a dormir. -
Hum tenho sono.... -
Não, Joana, não podes continuar a dormir, hoje é o dia de teu
casamento, o Eduardo já passou por aqui há dez minutos, ele já se
levantou.
- Joana espreguiçou-se, sorriu e dum salto pôs-se no chão, agarrou a
prima e dançou em volta dela, com a alegria estampada no rosto e
durante cinco minutos imaginou-se no lugar da prima, que daqui a umas
horas estava nos braços do Pedro.
-
hoje não , hoje quero ser feliz com a felicidade da minha prima
-
Pensou a Maria e acordou para a realidade, fechando os seus pensamentos. Ajudou
a Joana a vestir-se e quando já estava pronta, a Maria olhou para ela
... como estava linda no seu vestido de noiva, branco, simples, comprido
sem cauda, apenas com uma rendinha nos ombros, um decote largo, como
quisesse mostrar seu coração feliz, o cabelo solto, macio, caindo em
cascata pelos ombros, parecia antes um anjo vestida de noiva. Maria
sorriu feliz, ela tinha desenhado esse vestido pensando na ingenuidade
de Joana, ela combinou tudo, desde o branco, à renda, ao véu, tudo
tinha que fazer de Joana o que era, uma moça linda, ingénua, pura,
Joana a sua prima, a sua melhor amiga. Não se conteve e abraçou-a
forte, sussurrando baixinho encostando sua boca ao ouvido de Joana -
vais ser feliz! A
Joana saiu de casa, uma casinha toda em pedra de primeiro andar, uma
sala em baixo e a cozinha com um anexo de lado onde tinha um W.C. e um
lugar que servia de casinha de passar a ferro e de arrumações, rodeada
por um quintal todo empedrado com árvores à volta rodeando todo um dos
lados e no primeiro andar os quartos e mais um W.C. com janelas dum lado
e doutro e numa das janelas uma trepadeira a cair pelo tecto que encobre
o anexo, uma trepadeira que fazia o sol se esconder de vergonha, tal a
beleza dela, com as suas folhas verdes, como se o frio e a neve não
passassem por lá, da parte da frente da casa umas escadas que vão até
abaixo ao quintal frente, onde as flores sorriam para quem passasse e
para elas olhasse. Por
essas escadas desceu a Joana a caminho da felicidade, imperiosa,
parecendo uma rainha , sempre sorridente e entrou no carro do irmão,
seguindo para a Igreja onde já o Eduardo a esperava vestido no seu fato
preto , impaciente, esperando por ela, com o rosto contraído pelos
nervos, mas a música soou pela Igreja dentro, um Hino moderno, de amor,
de paz, o Eduardo olhou e os músculos contraídos deram lugar a um
sorriso feliz, a sua Joana já ali estava, já caminhava ao seu encontro
sempre sorridente, como se quisesse agarrar o mundo com esse sorriso.
Joana
enquanto caminhava ia virando a sua cabeça e reparou que a Igreja
estava como ela tinha escolhido, não tinha rosas, elas foram substituídas
por flores silvestres, lindas, de vários tons que davam à pequenina
igreja da aldeia, um ar de campo alegre com a sua música, diferente
também, escolhida por ela, não queria uma marcha nupcial, queria um
hino de amor e era esse hino de amor que estava tocando nesse momento
entoando alto, fazendo as paredes da igreja vibrar e fazendo parecer que
as flores dançavam ao seu som. O
tom de cada vestido das suas damas condizia com a flor que elas
transportavam nas suas mãos e o ramo de Joana continha todos esses tons
numa harmonia doce que faziam contraste com o branco de seu vestido e o
moreno da sua pele, tudo estava lindo, como linda foi a cerimónia, como
lindas foram as lágrimas de felicidade de Joana e como lindo foi o
beijo que o Eduardo lhe deu, que também fugiu à regra, em vez de seus
lábios beijar após dizerem o sim, beijou seu rosto, erguendo depois a
cabeça e completou seu carinho com um beijo na testa. Chegou
a noite, a cerimonia já se tinha realizado, a festa estava no auge e a
Maria de mansinho, saiu para a rua, a neve caía, os seus flocos roçavam
seu rosto enquanto caminhava, parou estática com os pensamentos bem
longe no infinito, no desconhecido, seus pensamentos estavam junto a um
rosto moreno de cabelos encaracolados, os pensamentos da Maria estavam
junto do Pedro. -
Onde estás Pedro?
- Gritou bem alto, afastada da multidão, longe do burburinho da festa. -
Porque me afastaram de ti? Porque não vejo os teus olhos? Onde, meu
Deus? Onde estás?
- E suas lagrimas começaram a se confundirem com os flocos de neve,
pareciam estalactites, querendo se partir, tal era a dor de seus
sentimentos. -
Mariaaaaaaaa, Mariaaaaa...
-
Que som é este? Iria jurar que ouvi meu nome, mas não, ninguém esta
aqui, estou só, ninguém me iria chamar.
- A Maria sorriu e continuou a andar. -
Mariaaaaaaaa, Mariaaaaa.. -
Ouviu-se novamente o som mais perto e a Maria pensou estar
enlouquecendo. No
mesmo instante em Peniche, a muitos Km dali.......Pedro, estava junto ao
mar gritando bem alto o nome da Maria, ele sentiu também a sua falta,
ele queria-a lá junto a ele, porque ele também não a esqueceu, estes
anos todos ele só teve um sonho, ter um dia a Maria nos seus braços e
enquanto um chorava junto á neve, outro secava as suas lagrimas junto
ao mar. -
Tenho que sair daqui, tenho que viver junto ao mar
- Pensava a Maria. - Vou-me embora daqui - Gritou bem alto, enquanto as lagrimas
escorriam por seu rosto. Dirigiu-se
para casa pensando em viver outra vida, arranjar outro emprego e sair
dali. -
A Minha tia vai aceitar......
e com esses pensamentos adormeceu. Dia
vinte e cinco de Dezembro, a Maria depois de umas horas de sono
turbulento acordou novamente cedo, era dia de Natal. Levantou-se e
enquanto se vestia surgiram lembranças do passado, os seus sonhos de
menina, os carinhos da sua mãe, o infinito do mar e o olhar do Pedro e
nesse momento decidiu.: -
Vou-me
embora daqui e vai ser hoje! Quero ver novos horizontes, quero sentir o
mar, quero viver outra vida, esquecer a Maria sonhadora. - Foi
até à cozinha onde estava a preparar o pequeno almoço, a tia Sofia.
-
Bom dia tia -
diz com um sorriso que já não era habitual ver-se na Maria. -
Mau, mau, que se passa menina? -
Tia, precisamos de falar. -
Não, não Maria, quando queres falar comigo é sinal que os teus sonhos
estão voando novamente, não, não te quero escutar. -
Tia, escuta-me por favor, ouve-me, minha prima , a Joaninha casou-se,
sabes que ela era a minha amiga, a minha companheira, a minha
confidente, ela ensinou-me a sorrir novamente, mas tia....ela não me
soube ensinar uma coisa. -
O quê, filha? O que Joaninha não te soube ensinar?
- Indagou com curiosidade a tia. -
Não me soube ensinar a esquecer os meus ideais, os meus sonhos, ela não
me ensinou a não precisar do mar, ela não sabe que eu preciso dele, de
o ver, de o sentir, de lhe falar, ela não me ensinou a esquecer quem
tanto amei e a quem tanto amo, por favor minha tia, liberta-me deste
pesadelo, deixa-me voar, deixa-me sair por uns tempos e se não me
encontrar, eu volto para junto de ti e dos meus primos e voltarei para
esta aldeia e aí deixarei de sonhar, mas deixa-me correr atras dos meus
sonhos, deixa-me vive-los por favor... E
no rosto da sobrinha a tia viu o seu desespero nas lagrimas que lhe
corriam rosto abaixo. -
Sim Maria, quem sou eu para te prender nesta gaiola dourada? Quem sou eu
para impedir de procurares os teus sonhos? Estarão no mar? No deserto?
Numa duna? Não sei, Maria!..... mas vai sim filha, mas um pedido
apenas.
- E o seu rosto transformou-se...
-
Diz tia, eu atenderei o teu pedido. Dizendo
isso abraçou-a muito forte e nesse momento sentiu-a como sua própria mãe
e nesse momento viu que ela a amou como se sua filha fosse, mas a Maria
dentro do seu egoísmo nada viu, nada sentiu, porque vivia presa a um
passado, esse passado que a chamava. -
Só quero que vás depois do ano novo, fazes-me isso? Passas esse dia
connosco? -
Sim, esse dia será teu, minha tia, esse dia dedico-o a ti, apenas a ti
e mais ninguém, nesse dia eu não sonharei com nada, porque esse dia
será o meu ultimo dia de sonho, a partir desse dia eu irei viver a
minha realidade, aquela que eu anseio viver. Com
estas palavras acabou o pequeno almoço e foram ambas tratar dos seus
afazeres, volta e meia a Maria sentia um olhar cúmplice sobre ela e
quando olhava, via o olhar da sua tia sobre ela e aí sorria, porque
sabia que a tia estava com ela e sabia porque sorria, era um sorriso de
esperança, um sorriso de quem quer alcançar este mundo em pouco
segundos. Chegara
por fim o dia esperado da Maria, era o terceiro dia do ano de mil
novecentos e noventa e nove, dia da sua partida e juntou a sua família
à hora do almoço e comunicou aos restantes membros a sua decisão de
partir, aí sentiu olhares de revolta, olhares de repreensão, mas também
sentiu um olhar meigo sobre ela, o de sua tia, ela sabia o porquê da
sua partida, embora todo o resto da família o desconhecesse, inclusive
a Joana, ela na sua felicidade não iria compreender os seus desejos, os
seus anseios, ai preferiu, esconder do resto da família os motivos da
sua partida . -
São duas horas da tarde Maria.
- Sim tia, estou acabar de arrumar umas coisas, levas-me ao comboio? - Um sorriso... - Claro, como saberia se partiste se não te visse entrar nele? Ah, Maria para onde vais? - Mais um sorriso, um sorriso malicioso, como se soubesse muito e muito quisesse ocultar... -
Onde vou? Boa pergunta tia, por aí, onde houver um mar eu paro e.......
- Abraçou a tia e ao abraça-la forte chorou compulsivamente, porque
tinha ganho uma mãe e ia abandona-la, como a sua a tinha abandonado há
dezassete anos atrás . -
Tenho que ser forte tia, ajuda-me....... -
Sim filha eu ajudo-te, vais ser forte, porque sabes se algo correr mal
eu estou aqui, nesta casinha humilde à tua espera. Com
as lágrimas nos olhos e o coração apertado partiu com a esperança no
coração... O barulho do comboio misturou-se com o barulho dos seus
pensamentos, com as ideias da sua alma inquieta e decidiu parar na terra
natal. E enquanto pensava... -
Tenho que fazer isso, é por aí que vou começar, aí verei se minhas
esperanças serão infrutíferas ou não.
- Dirigiu-se para o Centro.....em direcção à loja onde fazia compras
e sonhava. -
Bom dia senhora
- Disse a Maria com um sorriso nos lábios e os olhos a brilhar. -
Bom dia Menina
- Respondeu a idosa que estava sentada num banco do jardim. -
Em tempos não houve aqui uma lojinha?
-
Sim menina, houve, mas já há anos que fechou, o rapaz que aqui estava
à frente dela partiu para o litoral, sabe menina?
- Diz a velhinha sorrindo. -
Ele era um sonhador, isto não era vida para aquela rapaz, ele queria
voos mais altos e voou
- Dizendo isso, o seu sorriso alargou-se. A
Maria sentiu um choque, o seu coração ficou pequenino e as suas
esperanças estavam-se esfumando e não conseguiu conter, uma lagrima
teimosa que apareceu ao canto de seus olhos, tentou disfarçar, mas a
velhinha olhou para ela e com as suas mãos, já rugosas secou-a e
perguntou-lhe. -
Conhecia-o? -
Não, não o conhecia, emocionei-me apenas com as suas palavras. Um
sorriso do tipo malandro surgiu no rosto da idosa.......como dizendo que
se apercebeu que a Maria mentia. -
Sabe menina o meu marido há dias contou-me que esse rapaz esta bem na
vida, vive junto ao mar e tem uma vida que não tinha aqui, voou, mas
voou alto. Dizendo
isso sorriu novamente, um sorriso doce, como se ficasse feliz por
transmitir uma mensagem, porque ela sabia que lhe tinha dito algo de
precioso, mas a sua sabedoria de velhinha, fê-la ser discreta. -
Obrigada senhora.
- Agradeceu a Maria com os olhos agora com um doce brilho de alegria. -
Precisa de algo menina?
-
Não, obrigada, passei por aqui e lembrei-me dessa loja, obrigada por
perder esses minutos comigo. Apertou
a sua mão e sorriu e como que compreendendo o seu agradecimento, a
senhora velhinha ,sorriu também. Seguiu
sua viagem, sem destino, ou será que não tinha um destino? Sim, claro
que tinha, para quê enganar-se, o seu destino chamava-se felicidade,
mar ou apenas ilusão!? Ela
não sabia, ainda não tinha lá chegado, agora mesmo acabara de apanhar
outro comboio, pediu um bilhete para uma zona de Peniche, tinha lido num
jornal que lá havia uma vida de mar bastante agitada, que todos os
amantes do mar iam lá parar, porque não ela? Ao pensar nisso sorriu. A
viagem estava a ser lenta, mas a Maria nem se apercebeu dessa lentidão,
ela esta vendo a paisagem, os caminhos vazios do verde habitual porque o
inverno rigoroso e a geada tinham queimado tudo quanto era verde.... O
gelo que se fazia sentir lá fora quando a Maria abriu a janela fê-la
sorrir, ela lembrou-se do véu da sua prima no dia do casamento, das
fotos que tiraram no meio da Neve, da alegria da sua prima a correr na
neve, como se de uma garota se tratasse e não duma noiva e entre uns
pensamentos tristes outros felizes ela ia alternado a sua visão entre
uma paisagem com restos do verde outra seca e quase sem vida e
finalmente chegou. O
seu primeiro pensamento assim que saiu do comboio foi.. -
Tenho que ver o mar, tenho que sentir o seus cheiro, tenho que lhe
falar, contar-lhe como tem sido a minha vida estes anos todos, tenho que
lhe pedir conselhos. Ele vai-me ouvir, cada onda sua, assim que se
aproximar de mim vai-me aconselhar , vai me dizer o que devo fazer da
minha vida, vai-me dizer onde esta Pedro, vai levar o meu perfume até
ele e vai-lhe transmitir que eu estou aqui em Peniche junto ao mar, como
ele esta, só que não sei em que terra do litoral, mas numa está, de
certeza e ele vai escutar essa onda.
Mas.....
uma lagrima rebelde correu no seu rosto, a Maria limpou-a e seguiu até
á praia, os seus passos estavam lentos, ela queria andar rápido para
mais cedo ver o mar, mas as suas pernas não correspondiam, a sua dor
estava voltando novamente, as saudades estavam cravadas dentro de si
fazendo-a sentir-se só, desamparada e enquanto andava, as lágrimas
corriam pelo seu rosto abaixo e a Maria sussurrando ia dizendo... -
Não sejas parva Maria, tu não vais voltar a ver o Pedro, podes ir
fazer esse pedido ao mar, podes até suplicar que ele não te ouve. Recusava-se
a ouvir essa voz interior e seguiu em direcção à praia, parou, olhou,
nada viu, nada sentiu, estava paralisada, não conseguia acreditar que
ao fim desses anos todos ela estava junto ao mar, pensava que estava
sonhando e beliscou-se, ao sentir o beliscão abriu os olhos e aí sim
ela viu a sua imensidão, ela olhou o horizonte e viu as ondas que
vinham em cascatas para junto de si, tirou os sapatos, molhou os pés e
sentiu como se tivesse sido abençoada por algo divino, voltou a fechar
os olhos para o sentir, para o cheirar, para o ouvir e assim manteve-se
uns segundos, como que extasiada. Sentou-se
na areia e falou com ele, fez-lhe o seu pedido e ele como a
compreendendo, fazia barulho com as suas ondas que ao chegarem a seus pés
se desfaziam como uma carícia e a espuma em que elas se transformavam,
fizeram a Maria sonhar que era uma sereia que ia de volta ao mar nessa
onda e que lá bem no fundo iria encontrar o seu príncipe dos mares e
esse príncipe se transformava num peixe para a acompanhar, para não a
deixar sozinha e os seus sonhos mergulharam nesse mar profundo. Foi
nadando, olhando dum lado para outro, até que alguma coisa lhe toca,
sente medo, mas... domina, olha e vê aquele peixinho lindo que a
acariciava com as sua barbatanas, como que dizendo:
-
"amor, sou eu, o teu Pedro" não estás só, eu estou aqui,
aliviando os teus pensamentos, a tua alma, vem... vem comigo, mergulha
neste mar imenso que é o meu mundo, vem....vou-te mostrar as algas que
falam, os recifes que choram de solidão, os meus semelhantes que
festejam a passagem da tempestade.
- Dizia o peixinho enquanto nadava. -
Olha....aprofunda e deixa-te levar por mim, mergulha cada vez mais
fundo, olha vês aquele polvo? Ele chama-te, ele dá-te as boas vinda,
deixa-te ir, não tenhas receio, vem até junto dele,...
- Ela escuta a voz e reconhece a voz do Pedro e deixa-se ir com um
sorriso e uma paz enorme apoderou-se dela. Aproximou-se
do polvo, que a agarrou com os seus tentáculos, como que a protegendo
do seu próprio medo, o peixe aranha aproxima-se e estende-lhe seu
corpo, as andorinhas do mar encantam-na com a sua cor e um sem número
de peixes aproximam-se dela, sorriem, embalam-na com os seus cânticos,
vestem-na com uma grande cauda vermelha como o fogo, onde o manto era
azul celeste, contrastando com o azul/cinzento do mar e a rodopiaram, as
raias começaram a cantar, o som da musica foi aumentando, o seu cabelo
foi coberto com algas marinhas, lindas, caindo em cascatas ondulantes,
com a estrela do mar a fazer de coroa. Ela
era uma princesa sereia, onde os seus súbitos eram os seres do mar,
onde o carinho deles era a sua música, as barbatanas deles o manto,
as ondas revoltas, a carruagem e.... foi-se deixando levar por
aquela linda e profunda ilusão, a ilusão que estava junto ao Pedro e
os seus amigos e que a paz finalmente tinha voltado ao seu espirito, uma
paz que a encantava. Sentiu
uma caricia, no seu ombro e deitou a sua cabeça para sentir essa mão
que ela julgava ser a do Pedro e acordou com uma voz doce, protectora: -
Acorde menina. O mar esta bravo e daqui a pouco a maré vai encher, tem
que sair daqui. Ela
olhou para o homem, sorriu, dizendo.. -
Adormeci, nem dei pelas horas passarem, obrigada por me acordar. Dizendo
isso, levantou-se, sorriu mais uma vez para o homem e despediu-se,
agarrando na sua mochila, saiu junto do mar, reparando que se encontrava
calma e ela com uma paz interior e um apetite que há muito não sentia
e o seu estômago estava reclamando os maus tratos dos ultimas dias. Parou
num restaurante virado para o mar, sentou-se à mesa, pegou na lista,
escolheu o que queria e enquanto esperava pelo comer, deixou o seu olhar
percorrer a sala, havia lá muita gente, uns com a pele queimada pelo
mar, outros de fato e gravata, desviou a vista e olhou o mar e voltou a
sentir a mesma paz de à pouco e lembrou-se do seu sonho e sorriu, mas
entretanto o seu olhar parou num grande cartaz onde dizia: Curso
de mergulhador. -
E se eu fosse tirar esse curso? Estás
doida Maria, deixa-te disso.- Dizia
a voz do seu consciente. Uma
onda de rebeldia dentro dela a perturbou e se bem o pensou, melhor o
fez, porque depois de acabar de almoçar, pegou na mochila e seguiu para
perto do cartaz, para melhor ler, leu-o, tirou a morada e seguiu a
caminho do cais, como se já o conhecesse , mas algo a impelia para lá,
algo que não sabia explicar a empurrava para esse lugar e chegou á
academia e a primeira coisa que viu foi outro cartaz a convidar ao curso
de mergulho. Bateu
à porta duma sala da academia de mergulho, uma voz rouca vinda de
dentro mandou-a entrar e........
-
Boa tarde
- Diz a Maria timidamente. -
Boa tarde que deseja? Alguma informação?
- Disse o homem colocado por trás da pequena secretária em pinho,
recheada de papelada sobre a qual um trofeu em forma de mergulhador
fazia de pisa papeis e num extremo uma placa de identificação, COSTA em letras bem grandes. -
Sim, li algo sobre esse curso e gostaria de saber se esse curso também
é para mulheres? -
Claro, para todo o mundo dos 18 aos 40 anos. Que idade tem a menina?
Dizendo isso o seu olhar percorreu o corpo da Maria de cima abaixo, a
Maria corou ligeiramente e nesse momento quis desistir de tudo, mas não,
não vai ser um olhar que a vai fazer desistir dos seus sonhos, pensou
ela ,não vai ser um olhar que lhe vai tirar o prazer de mergulhar
nessas águas límpidas e profundas, aí reagiu e disse-lhe com ar
reprovador. -
Trinta e um anos....... quero-me inscrever, o que é preciso? O
homem disse o que era preciso, explicou tudo e enquanto ele preenchia a
papelada para a sua inscrição na Academia, a Maria ia percorrendo a
sala com o olhar e reparou que a mesma tinha uma decoração discreta, a
simplicidade estava visível ali, nela tudo continha dizeres e fotos
alusivas ao mundo do mar, ao mundo do mergulho, as paredes brancas como
se tivessem sido acabadas de pintar, com fotos de cada turma de
mergulhadores que por lá passaram, ao centro por cima da secretária
estava uma foto do fundador da Academia, um homem forte com grandes
bigodes, como se pode chamar um autentico lobo dos mares, as janelas
grandes abertas para trás onde a visão era maravilhosa, via-se o mar
através delas, como se as ondas quisessem entrar por elas a dentro. |
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Tão
absorta estava a olhar a sala ao seu pormenor que saltou ligeiramente
com a voz áspera e um pouco seca do funcionário ao dizer: -
Cada dia há um treinador, o professor, nunca é o mesmo e para não
haver dúvidas, é expressamente proibido as alunas envolverem-se com os
professores. -
Muito bem.
- Respondeu ela. E Pensou. - E
os professores com as alunas! -
O meu objectivo não é esse e já agora saberá me dizer se haverá por
aqui um quarto por alugar? -
Sim, veio mesmo na hora certa, nós alugamos quartos para alguns alunos
e ainda temos uma vaga. Está interessada? -
Certamente que sim, cheguei agora do interior e não tenho para onde ir. -
Do interior para aqui?! -
Porque não? -
Desculpe menina, é que o seu aspecto nada diz que vem do interior,
parece antes vinda da capital.
A
Maria sorriu e diz-lhe... -
Quem vê caras não vê corações
- Dizendo isso, pegou no seu saco e seguiu o homem que ia a indicar-lhe
o caminho.
Chegou
ao quarto e parou o seu olhar, percorreu-o todo e gostou do que viu, um
quarto limpo, arejado, com cortinas aos xadrez, uma cama de corpo e
meio, uma cómoda e uma guarda fatos, tudo em pinho, a condizer com o chão
que era também em madeira de pinho, bem como o varão dos cortinados
estava tudo a combinar, dentro da simplicidade e gostou, gostou muito. Despediu-se
do homem fechou a porta, deu um salto para cima da cama e suspirou e ao
suspirar sorriu, fechou os olhos e os sonhos voltaram novamente à sua
mente, um rosto aflorou aos seus olhos e esse olhar novamente a fixou
vendo nele mais uma vez a imagem do Pedro. -
Por onde andas? Que é feito de
ti? Porque nos separou a vida?!
- Gritou uma voz dorida dentro de si, como se fosse um animal que
acabasse de ser ferido. Mas a sua ferida era grande, tão grande que doía,
tão forte, que fazia o seu choro se tronar compulsivo. Na sua amargura,
chorou, chorou muito e cansada adormeceu, vestida e calçada acordando só
no dia seguinte, mais fresca, sentindo-se livre como um pássaro, estava
radiante e nada a afectava naquele momento, via o mundo de cor rosa, ela
iria realizar um dos seus sonhos, ela ia mergulhar nesse mar, ver os
seus peixes, passear entre as algas e recifes, conhecer todas as
maravilhas das profundezas do mar. Levantou-se,
deu um duche, preparou-se e lá foi ela tomar o seu pequeno almoço,
para depois seguir para a escola de mergulho, onde as suas aulas iriam
começar dali a uma hora. Chegou
lá viu muita gente jovem, entre eles encontravam-se alunos e alguns
professores, o seu olhar percorreu todos os presentes mas em nenhum se
fixou, mas alguém entre eles a viu e a reconheceu, alguém paralisou ao
olha-la, como se ela dum fantasma se tratasse. Sim o Pedro estava lá,
entre aqueles jovens, vivo, alegre, mas mais uma vez ele nada fez ou
disse, mais uma vez a sua timidez se apoderou, paralisando-o na presença
da Maria, mas ela seguiu em frente e misturou-se com os restantes alunos
para o conhecimento geral. O
mestre, levou-os para a sala de aulas, fez a chamada e foi conhecendo um
a um, entre rapazes e raparigas e cada vez que chamava um, para os pôr
a vontade ia dizendo uma piada e aos poucos iam aparecendo sorrisos em
todos os rotos, os alunos estavam a integrar-se bem e a Maria como os
restantes estava feliz por estar a participar nesse curso. Olhava
dum lado para outro e ia observando, o seu olhar observador estava
gostando do que estava a ver. Acabaram-se as apresentações e o mestre
sorrindo, levantou-se da cadeira e disse: -
Chegou a hora de se familiarizarem com a academia, sigam-me.
- E lá foram todos atras dele. Começou
pela sala onde a Maria tinha feito as inscrições, alguém com sentido
de humor, um rapaz alto, moreno, disse... -
Essa já nos conhecemos, não podíamos estar aqui se não passássemos
por lá. -
O riso foi geral. O mestre olhou para ele dizendo a sorrir... -
Tá visto que temos aqui um rebelde.
- Bateu-lhe nas costas. - Veremos
se lá em baixo manténs esse sentido de humor. - Mais uma vez a
risada foi geral, estava visto que aquele rapaz chamado Alfredo iria ser
o bobo da aula. Seguiram
depois para outras salas de aulas onde havia varias carteiras e ao
centro encostada a parede encontrava-se a secretária do professor
estando a seu lado o quadro onde ele iria passar os apontamentos. A sala
era pintada de bege e vários quadros alusivos ao mergulho
encontravam-se espalhados pelas paredes, deixaram essa sala e foram
percorrendo mais quatro salas todas decoradas da mesma maneira, mas cada
uma pintada de cor diferente. -
Professor porque cada sala de aula tem uma cor diferente?
- Indagou uma das alunas, de nome Fernanda.
-
Boa Pergunta menina, antecipaste-te eu já ia explicar o porquê das
cores. -
E foi dizendo. -
Cada sala corresponde a um grau de ensino, cada vez que ultrapassarem
esse grau, mudarão de sala e as salas serão conhecidas pelas
cores e não por nºs como habitualmente, iremos começar pela Bege,
seguida da verde, cinza e finalmente a sala azul, a cor do mar, se lá
chegarem serão futuros mergulhadores. Mas continuemos.
- Disse ele seguindo para a sala dos vestiários. -
Da ala direita o vestiário e chuveiros femininos, da ala esquerda
vestiário e chuveiros masculinos.
- Ao pararem ali ele explicou e mais uma vez maroto disse... -
Perceberam bem? Agora não troquem. - E sorriu. -
Professor
- Disse Alfredo. - Eu sou míope.
- Dizendo isso um sorriso malandro apareceu no seu rosto. -
Sim Alfredo?
- Ele já sabia o seu nome. -
Então lamentamos todos, mas não vamos poder manter-te na escola. Não
é verdade meninos? Uma das regras é não ser míope. - O riso foi
geral e Alfredo replicou... -
Não professor eu vejo bem estava brincando. Mais
uma vez o mestre piscando o olho para o resto da turma perguntou... -
Acreditam? -
Nãoooooo!!
- As vozes entoaram-se nas vestiários e lá seguiram no reconhecimento
da academia sorrindo. Seguiram
para a sala de reuniões, passando pelo refeitório, tendo o mestre
avisado que ali poderiam fazer as suas refeições e em menos de uma
hora a academia estava toda vista, a partir dali o tempo faria com que o
conhecimento da mesma, fosse mais profundo.
Oito
da manha do dia seguinte, o Pedro saiu de casa e foi passear ate à
praia, os seus pensamentos estavam turvos e nada melhor que olhar o mar
para descontrair, para melhor raciocinar e ali ficou parado, olhando o
mar, olhando os pescadores que ali passavam os seus dias pescando e tão
absorto estava que nem deu pela chegada do seu amigo e colega. -
Bom dia Pedro, logo de manha por aqui?
- Dando-lhe uma pequena pancada na cabeça, sorriu. -
Bom dia Sérgio, estava entretido olhando os pescadores, que nem dei
pela tua chegada. -
Que se passa? Estas com olheiras, sobrancelhas arqueadas, mau..... eu
conheço-te que se passa Pedro? -
Nada, sério que nada. -
Nada? sabes há
quantos anos eu te conheço? há quantos anos nós trabalhamos juntos? E
que entre nós jamais houve segredos, conta lá rapaz
que se passa.
- Batendo-lhe nas costas sorriu. -
Ok, ok, esta noite não preguei olho, apenas isso e como já não podia
estar deitado vim ate aqui. -
Não dormiste? Tu o homem da nossa praça que mais dorme, que se passa,
desabafa homem. -
Lembras-te de eu te ter falado da minha aldeia? -
Sim lembro-me porquê? -
Lembras-te de eu ter contado que quando era garoto, aí com os meus
dezasseis anos me apaixonei por uma rapariga e por ela eu fiquei estes
anos todos solteiro?
-
Sim recordo-me perfeitamente, a mulher a quem tu dedicas esses poemas
diários, mas que tem ela? -
Ela esta aqui. -
Aqui?
- Admirou-se muito o Sérgio. -
Sim. No curso de mergulho, ela é uma das alunas que se inscreveu ontem.
Lembras-te do Costa dizer que chegou uma rapariga muito bonita do
interior? -
Se me lembro, todos nós estamos desejosos de a ver.
- Pisco o olho ao Pedro sorrindo. -
Pois essa rapariga do interior é a Maria, a mulher que amei todos estes
anos. E eu sem lhe poder falar, sem a poder tocar. -
Porque não? Que te disse ela quando te viu? -
Nada, ela não sabe que estou aqui, ela não sabe que vou ser um dos
professores dela, ela já nem se deve lembrar da minha existência, já
lá vão quase dezassete anos, qual a mulher que se lembra do magricelas
que estava atrás do balcão duma mercearia? -
Calma Pedro, pode não ser ela, como bem disseste passaram-se muitos
anos e as pessoas mudam de feições, calma. -
È ela Sérgio, eu reconhecia-a entre um milhão. -
Ok , se é ela vai-lhe falar, diz-lhe quem és!
-
Não, não posso, ela não sabe que a amei, que ainda a amo, ela não
pode saber, a esta hora já tem marido e filhos. Lá
foram falando por mais uma hora até que chegou a hora do curso, o
Sérgio curioso, não deixou de comparecer à chamada, ele queria ver a
mulher que fez seu amigo estes anos todos se afastar de todas as outras,
ele queria falhar-lhe, ouvir-lhe a voz, saber o que de especial tinha
essa mulher, porque para ser amada assim, só poderia ser uma mulher
especial e se bem o pensou, melhor o fez. -
Bom dia menina, apresento-me, Sérgio, um dos seus futuros professores
de mergulho. Um
sorriso tímido surgiu nos lábios da Maria e timidamente disse,
estendendo a sua mão -
Bom dia, sou a Maria. -
Tenho ideia de já te ter visto, mas não sei onde! -
Não me parece. Sou nova aqui, vim do interior, cheguei ontem, vi que
estavam a dar este curso e como o mar é a minha paixão, resolvi entrar
nesse curso.
- Sorrindo timidamente mais uma vez. -
Com licença, as aulas vão começar. Muito Prazer Maria, se for preciso
algo não tenhas receio de dizer.
- Sorrindo apertou-lhe a mão. Cada
um seguiu o seu caminho e o Sérgio não resistiu e foi ter com o Pedro.
Entrou no seu compartimento, como um furacão gritando. -
Pedro, mostra-me os teus poemas.
-
Estas doido? Que se passa ? Porquê essa gritaria? -
Eu conheci-a, eu conheci a tua Maria, eu fui apresentar-me a ela. -
Conheceste a Maria? Conta como foi isso? Como Está ela? Está casada?
Tem filhos?
- Ao dizer isso as suas mãos tremiam, a sua voz trémula mostrava bem o
seu estado de ansiedade. -
Calma rapaz.
- Disse o Sérgio a sorrir. - Eu
só me apresentei, ela pouco falou comigo, ela estava tímida, mas
Pedro, digo-te uma coisa, só uma mulher daquelas te faria estar estes
anos todos sozinho. - Ao dizer isso um sorriso malicioso apareceu ao
canto de sua boca. -
Diz Sérgio, de que falaram? Ela esta casada? -
Não há aliança naquele dedinho delicado isso posso eu te garantir,
mas ela só me disse o nome, Maria e que veio do interior, mas ela é
bonita, delicada, suave, viste-a bem ontem? Como ela é alta, aqueles
olhos azuis a fazerem contraste com aquela longa cabeleira preta, aquele
sorriso sempre nos seus olhos e lábios, morena, vestida com
descrição, mas com gosto, Pedro, tens a certeza que ela veio do
interior? Duma aldeia? Ela é a tua mulher Pedro, eu já não duvido
mais duma coisa dessas. -
Dizendo isso pegou nos poemas que o Pedro lhe estendia e começou a
lê-los. Eles
falavam do seu grande amor por Maria, neles, descrevia como tinha sido
suas vidas de adolescentes, neles ele descrevia o sofrimento pelo qual
passou ao longo destes anos e o Sérgio estava maravilhado com aquilo
tudo, ele amava a sua esposa, mas não daquela maneira, ele jamais tinha
visto amor com a grandeza daquele que o Pedro nutria por Maria e ali
ficou lendo, sem nada dizer, sem sentir que o Pedro se tinha retirado.
-
Pedro. -
Chamou ele sem levantar a cabeça e como se não ouvisse resposta ergueu
os seus olhos e viu que estava só, olhou o relógio e verificou que
esteve ali estático durante uma hora a ler os poemas do amigo, essas
maravilhas do amor e como se estivesse falando para o amigo disse : -
Olha este, vê este, neste dia não devias estar muito inspirado.
- Começou a lê-lo em voz alta. Cem
anos na terra eu viva Entretanto
como ninguém estava ali para o ouvir ler, porque o Pedro tinha saído,
ele estava transtornado, ele não poderia estar quieto, ele tinha que
ver a Maria, nem que fosse de longe, ele tinha que saber como ela
estava. O Sérgio saiu da sala e foi a casa, falar com a sua esposa, nas
suas mãos ele levava alguns poemas do Pedro, ele tinha que partilhar
com ela a sua emoção, a emoção de ter um amigo assim, com essa
capacidade de amar e chegando a casa chamou a mulher e começou a
contar-lhe a história do seu amigo Pedro e da Maria.
-
Será que ela ainda o ama também? - Perguntou a Luísa . -
Não sei. - Respondeu o Sérgio. - Ele nunca me falou do amor dela, mas
só pode, eles têm demasiadas coisas em comum, o celibato, o amor ao
mar, eles amam-se Luísa, eu não me engano. - Dizendo isso agarrou nas
mãos da esposa apertando-as como a pedir-lhe ajuda e como ela o
conhecia tão bem, sentiu aquele aperto de mão, sorrindo disse.. -
Queres ajuda-los a encontrarem-se não? -
Sim. - Respondeu ele. - Esse casmurro não vai falar com ela, não vai
mostrar o que sente por ela, a sua timidez não o deixa fazer isso,
temos que fazer algo por eles. -
Deixa por minha conta, amanha já vou a escola e como se fosse por acaso
eu falo com ela. - Dizendo isso beijou o nariz do marido replicando. -
Agora vai, ainda dão pela tua falta lá na escola. Ele
beliscando as maçãs do rosto da sua esposa, saiu sorrindo, gritando. -
És um amor. Assim
que a Luísa se encontrou sozinha, ficou pensativa e diante dos seus
olhos passou um filme romântico, ela já via o Pedro e a Maria saírem
da Igreja, já casados, a Luísa já via os seus filhotes brincarem com
os filhotes do seu amigo Pedro e Maria e a sua cabeça não mais
descansou, ela tinha que fazer algo por aqueles dois.
-
Mas espera Luísa. - Diz ela
para si mesmo. - Sabes se a Maria
ama Pedro? Ama sim, ela tem
que amá-lo. - Dizia seu incorrigível coração romântico. Ficou
a pensar a melhor maneira de abordar a Maria como se fosse por acaso e
entre uma e outra artimanha que passava na sua mente, ia continuando os
seus afazeres, pensando que de tarde, após o almoço iria à escola,
ela até tinha que lá ir, era contabilista na academia e tinha que lá
ir buscar uns papeis, aproveitava e procurava a Maria, porque não
poderia passar esse dia sem a abordar e ao pensar assim sorriu, um
sorriso maroto, como se já tivesse a certeza que sua obra iria ser
realizada com êxito. No
entanto, lá na escola a Maria continuava com as suas aulas e aos poucos
ia conhecendo um ou outro colega e estava feliz, todos eram agradáveis,
todos tinham uma palavra meiga parta ela, eles sabiam que a Maria tinha
chegado há dois dias do interior, porque o professor fez esse
comentário na aula de apresentação e eles deduziram que a Maria
estivesse só naquela cidade e sorriam-lhe como querendo dizer
não estas só, somos um grupo, somos como uma família e a Maria
comoveu-se com aqueles sorrisos de carinho e por momentos sentiu-se
menos só, sentiu que o mundo não era tão ruim como ela estava
imaginando. A
pensar nisso, saiu da sala de aula e a caminho do refeitório ela viu um
homem de costas que ia a sua frente na mesma direcção e sentiu algo
estranho dentro de si, reparou no seu andar, no seu cabelo e batendo na
sua testa comentou... -
Maria deixa de ser louca, vês o Pedro em tudo que se mexe, ele está
bem longe daqui, sabe-se lá onde anda, não sonhes alto, acorda para a
realidade.
- Fechou por segundos os olhos e sentiu mais uma vez essa dor dentro de
si, mas reagiu e quando os abriu, essa figura já não se avistava, aí
a Maria pensou que tinha sido uma alucinação sua, só que a Maria
desconhece que no momento que fechou os olhos essa figura olhou para
trás e viu que era ela e escondeu-se atrás dum pilar para a ver passar
sem ser notado.
Quando
a Maria passou por ali, o Pedro ficou paralisado. -
Como ela está linda meus Deus.
- Comentou. - Como ela se transformou nesta mulher linda, os seus olhos, o seu andar
delicado, o seu cabelo tratado com carinho, parece uma rainha e eu não
posso ser o seu rei.... porque...? Porqueeeeeeeeeee...??? - Gritou
para dentro de si. - Que fiz de
errado para não merecer o seu amor? Quem fui eu para merecer tamanho
castigo? Porque a amo ainda? Aindaaaaaaa? Eu amo-a mais do que nunca,
disso eu sei agora, tens que ser minha Maria, tens que ser o meu amor,
eu tenho tanto carinho, tanto amor, para te dar. Meu Deus não me
castigues mais! - Gritou ele. Com
essas palavras seguiu para o exterior da academia, já tinha perdido o
apetite, ele não poderia comer no mesmo sítio que a Maria, sem lhe
falar, sem os seus olhos fixar e na sua mente outro poema saiu e nesse
poema ele sentiu que estava enlouquecendo de tanto amar essa mulher e
não ter coragem de lhe dizer, não ter coragem de lutar contra a sua
cobardia e imaginou que ela ia ser sua nessa noite fria de Janeiro e do
seu peito soou um grito de dor, de desejo, de paixão, de amor
incontrolado Maria...
Tu és a lua, que carrego dentro de mim Ao
saírem essas palavras de dentro de si, o Pedro assustou-se e não
querendo acreditar no que a sua mente estava pensando, dirigiu-se a casa
do seu amigo Sérgio, pois necessitava falar com alguém, senão
endoidecia e como só ás dezasseis horas é que ambos tinham a primeira
aula da tarde, resolveu passar por lá, para falar com ele e com a meiga
Luísa, ela tão bem o compreendia, ele que tinha sido seu padrinho de
casamento, porque a Luísa tal como a Maria não tinha pais nem ninguém
por perto, no dia de seu casamento e convidaram-no para ele representar
o seu pai nesse dia e o Pedro aceitou com emoção, ele adorava aqueles
seus dois amigos de peito, embora nunca tivesse contado á Luísa a sua
História, ele sabia que o Sérgio há muito, lhe havia contado, havia
muita cumplicidade entre eles, muita
confiança. muito amor e o Sérgio jamais lhe esconderia uma coisa
dessas e o Pedro desconfiava isso porque a Luísa descarada como era
nunca lhe ter perguntado o porquê de seu celibato, é porque sabia de
algo. Com esse pensamento bateu à porta.
-
Pedro, que bom ver-te por aqui, entra, o Sérgio está na sala de
jantar, vem que vou por um prato para ti na mesa. -
Não Luísa. - Disse o Pedro estendendo o rosto para a cumprimentar. -
Só vim falar com vocês, preciso dum concelho, preciso de falar senão
rebento. A
Luísa ficou sem fala, que se passaria com o Pedro para lhe falar isso a
ela. Ele que nunca se tinha aberto consigo. -
Deves estar mesmo mal, meu amigo. - Replicou a Luísa e dizendo isso
abraçou-a e assim entraram na sala de jantar, onde o Sérgio se
encontrava a comer. A
Luísa retirou-se para ir buscar um prato para o Pedro, deixando assim o
Pedro iniciar o seu desabafo com o Sérgio e só depois é que entraria,
quando sentisse que seria a hora, ela sentia que o Pedro vinha falar da
Maria e assim foi, quando chegou à sala com o prato e os talheres para
Pedro, encontrou-o com as mãos na cabeça, a dizer... -
Eu enlouqueço, ajudem-me, digam-me que devo fazer. - Dizendo isso
agarrou nas mãos da Luísa e disse. -
Luísa eu nunca te contei, mas eu amo muito uma mulher. O Sérgio sabe
há muitos anos da minha história, mas nunca tive coragem de ta contar.
- A Luísa na sua habitual inocência e sinceridade disse. -
Pedro eu conheço-a, o meu marido já me contou e sei que ela está cá
em Peniche na academia. O
Pedro sorriu e disse. -
Estou a ver, esse bisbilhoteiro não se calaria por nada deste mundo. -
E seguiu suas palavras com uma pancadita nas costas de Sérgio. - Ainda
bem, assim vai ser mais fácil eu falar convosco meus amigos. O
Pedro falou das suas dúvidas, do seu amor por Maria, da sua cobardia em
se aproximar dela, do momento que a viu novamente e das tentações que
teve em lhe falar, de a abraçar, de a raptar para bem longe de qualquer
olhar, de sentir a certeza se era amado por ela com a mesma intensidade,
falou muito e com um olhar turvo pela dor, com as mãos encrespadas pelo
desespero, com ansiedade de ouvir mais algum som que não fosse o da sua
voz, mas naquela sala fez-me um silencio fúnebre, o Sérgio e a Luísa
nem pestanejavam, tal maneira estáticos estavam, com as palavras que
acabavam de ouvir. Eles
não queriam acreditar que no século XXI, ainda existisse alguém com
essa capacidade de amar dessa forma, não só com os sentidos, mas com
alma, com todas as partículas do seu corpo e esse alguém estava diante
deles, desesperado, sem saber que fazer, numa espera angustiosa dum
conselho amigo, duma palavra de esperança, ele queria ouvir o que seu
coração pedia- - Pedro amo-te - mas.... os seus amigos não podiam
pronunciar essas palavras, eles não sabiam, qual o sentimento que a
Maria nutria por Pedro e a Luísa com voz embargada pela emoção,
levantou e disse. -
Meu amigo, meu irmão. Como eu queria dizer que a Maria te ama com a
mesma intensidade que tu, mas ... eu nem sei se ela te ama, eu nem a
conheço, mas daria tudo para neste momento gritar bem alto nesta sala
que a Maria te amaaaaaaaaaa, mas não o posso fazer, mas sim posso dizer
bem alto para ouvires, para entenderes........Vai .......vai ter com
ela, diz que a amas, não sufoques mais esse sentimento que tens dentro
de ti, o que vier por acréscimo é sempre bom, porque a perder, já a
tens perdida, se a recuperares será uma benção para essa tua alma
atormentada. -
Não posso Luísa, eu tenho medo dum não, ela já nem se deve lembrar
de mim. -
Como podes afirmar uma coisas dessas?- Replicou o Sérgio. -
Já sei, não reages, reajo eu, não vais ter com ela? Muito bem, vou
eu. - Dum salto a Luísa levantou-se da cadeira , caminhando para a
porta, despindo devagar o seu avental, esperando uma reacção do
Pedro.... -
Espera Luísa, não faças isso, não disseste a pouco que tinhas que ir
á academia? -
Sim vou e vou falar com a Maria - Abriu a gaveta do armário e num gesto
brusco puxou de uns papeis de dentro e mostrou-os ao Pedro. -
Sabes o que é isto Pedro? -
Sei. - Disse sorrindo o Pedro. - Eu conheceria esses papeis até de
olhos fechados, só pelo simples toque, esses são os meus poemas,
alguns que o Sérgio esteve ontem a ler. - Virando-se para o Sérgio
perguntou-lhe. - Que estão fazendo na tua casa? -
Trouxe-os para mostrar á Luísa, não resisti, ela tinha que ler essa
beleza, não te zangues Pedro, nós só te queremos bem, nós só te
queremos ajudar. - Dizendo isso levantou-se da cadeira, pegou nos ombros
do amigo e acrescentou estas palavras. - Deixa-nos ajudar Pedro.
Deixa-nos ser testemunhas da tua felicidade, deixa-nos sentir que tu és
feliz, para nós o podermos ser também. As
suas últimas palavras já foram pronunciadas com a voz enrouquecida
pela emoção, com lágrimas nos olhos, o Pedro era como um irmão para
eles e nunca se tem vergonha de chorar diante dum irmão e chorou como
uma criança abraçado ao amigo, um abraço de paz, de solidariedade e
amizade, porque ele estava a sentir o sofrimento do Pedro.
-
Ok, ok que pensam fazer? Digam de vez, não me deixem mais nesta
expectativa, vá lá.... soltem essa língua. -
Sabes o que vou fazer? Vou agora conhecer a Maria, vou procurá-la e
levo comigo estes poemas para o caso de precisar deles. - Dizendo isso
saiu porta fora, sem que desse tempo ao Pedro de dizer algo, reclamar
... A
Luísa chegou à academia, entrou na secretaria, dirigiu-se á
secretária do Costa e com um sorriso cumprimentou-o sorriso esse que
ele retribuiu, dizendo: -
Bom dia Luísa, que bons ventos te trazem por cá? -
Já não te lembras? Telefonas para minha casa, para vir buscar essas
facturas, para vir buscar um livro e outros papeis e fazes essa
pergunta! - Puxando duma cadeira sorrindo, sentou-se. -
Ai Luísa esta velhice, acreditas que já não me lembrava de ter
telefonado? Só quando voltasse a pegar nos papeis, é que voltaria a
lembrar-me. - Disse coçando sua calvície. - Os cinquenta anos
Luísinha ........ quando lá chegares verás - Ambos deram uma
gargalhada. O Costa levantou-se foi a um armário tirou de lá uma pasta
e um livro e entregou-os á Luísa -
Agora é contigo, sabes que contabilidade não é cá com o velhote. - A
Luísa agarrou neles e com um ar muito ingénuo indagou: -
Então conta lá Costa, gente nova por aqui ou não? Alguém que
merecesse a tua atenção? -
Então, o teu marido não te disse? Entrou há dois dias uma miúda
muito bonita, para o curso de mergulhadores, vinda do interior, só
queria que a visses, uma mistura de anjo e sereia, tal a beleza dela,
uma beleza selvagem, misturada com uma beleza celestial, feliz do homem
que a levar.
-
Então não é casada?! -
Solteirinha. - Sorriu malicioso. - Se a minha Carla sabe que falo assim
de outra mulher..... Ai Costa Apareces morto na Costa. Ambos
deram uma gargalhada. E a Luísa continua a pesquisa. -
Tenho que conhece-la, sabes onde ela esta neste momento? Gostava de a
ver, uma vez que ainda estamos na hora de almoço, chegava-me ao pé
dela e via-a. -
Olha tens sorte, via-a a pouco a caminho da praia, do lado das ancoras
azuis, não sei que vê ela de especial nesse sítio que à hora do
almoço lá vai ela a caminho das ancoras, sabes ontem fui espreitar e
ali fica sentada ate à hora das aulas, sozinha, pensativa, não tirando
os olhos do mar, como se esperasse alguém vindo através dele , é
estranha essa moça Luísa, sabes gostava que falasses com ela, parece
ser boa moça e um pouco solitária, fazes isso? Sabes que psicologia é
contigo, a ti recorremos quando temos problemas com alguém não sei que
tens de especial miúda. - Sorriu. -
Está bem Costa até tenho a tarde livre, vou até lá depois amanha
digo algo. - Despedindo-se com um esticar de mãos. A
Luísa saiu do portão que dividia a academia da praia, descalçou-se e
foi em direcção as ancoras azuis, um local calmo, sereno, com um barco
atracado na areia pintado de verde e azul com os dizeres "Academia
de Mergulhadores", um local onde as ondas batem e estalam nas
rochas, ao longe um barco de pesca parado em alto mar que ajudava em
toda aquela beleza e a Luísa ao aprecia-la pensou. -
Só uma alma sensível se lembraria de vir para aqui e diz o Costa diz
que tem esse sítio de especial? - Abanou a cabeça e seguiu em
frente em direcção á Maria. -
Bom dia. - Disse a Luísa estendendo a mão. - Sou a esposa do professor
Sérgio aqui da Academia, presumo que seja uma das alunas. -
Bom dia. - Respondeu timidamente a Maria. - Sim sou uma aluna da
Academia, prazer, chamo-me Maria. -
Posso sentar-me a apreciar esta beleza? Que me diz a este sítio? - E
para inspirar confiança... mentiu. - Sabe ainda hoje venho para aqui
namorar é o nosso cantinho desde solteiros. -
Sim é lindo, só estou aqui na academia há três dias e na hora do
almoço venho aqui e aqui perco-me nos meus pensamentos, a ver o mar, a
sonhar. Desculpe, agora perdi-me a falar parecia-me que já a conheço
há muito e só nos vimos agora pela primeira vez e já estou pensando
alto. - Disse timidamente . -
Olha Maria , posso tratar-te por tu? Somos quase da mesma idade pelo
aspecto, eu tenho trinta e dois anos. -
Sim podes, eu tenho menos um que tu. Sabes, encontro-me muito só aqui
nesta tua cidade e falar alivia-me, liberta-me e há muito que não falo
a sós com alguém, olha desde vinte e quatro de Dezembro, dia do
casamento da minha prima e minha melhor amiga. -
Maria, eu também estou muito sozinha, só tenho meu marido aqui da
família e moças da minha idade poucas ou quase nenhumas, as que falo
são mulheres dos colegas do meu marido e é em dias de festas e pouco
mais, por isso, Bem vinda a bordo. - Estendeu a mão e apertou a da
Maria que estendia a sua.
Ambas
sentiram que naquele momento tinha nascido uma bela amizade, nenhuma
delas sabia o porquê desse sentimento, mas sentiram as duas o mesmo e
não ligaram a isso, ambas precisavam duma amiga, a Luísa tinha a
amizade do Pedro, mas ele era homem e uma mulher compreende melhor as
necessidades, os anseios, as tristezas de outra e ficou feliz porque
sentiu que podia confiar na Maria, assim como a Maria sentiu que tinha
ali diante de si uma segunda Joana e sorriu, com um ar feliz , um ar de
paz, de tranquilidade. Falaram
de coisas banais durante a meia hora que faltou para as aulas
começarem, a Maria despediu-se dizendo que estava na hora de começar
as suas aulas da tarde. -
Maria que costumas fazer depois das aulas? Elas acabam as cinco e meia?!
- Perguntou a Luísa -
Nada de especial. - Disse a Maria. - Ou venho até aqui um pouco, mas
como a essa hora o frio faz-se sentir mais forte, estou aqui pouco tempo
ou vou directamente para o meu quarto ler ate à hora do jantar. -
Olha o meu marido hoje só sai as oito horas, porque tem uma reunião
depois das aulas, posso passar aqui à saída e vens conhecer a minha
casa, lanchamos e fazemos companhia uma à outra. -
Não quero incomodar, tu tens a tua vida, fica para outra ocasião. -
Disse a Maria envergonhada, desejosa de aceitar, porque a solidão
estava a pesar muito no seu íntimo. |
|
-
Não senhora. - Replicou a Luísa. - Fica combinado, ás cinco e meia
estou à porta da academia à tua espera. - Dizendo isso levantaram-se e
entraram na academia, seguindo a Maria para as aulas e a Luísa para
casa trabalhar um pouco na contabilidade até as cinco e um quarto. Enquanto
a Maria seguia sua vida entre a academia e seu quarto, lá longe a sua
tia pensava nela e doía-lhe olhar aqueles corredores e não ver a Maria
deambular por eles e sentia a sua falta, sentia falta daquele sorriso
embora triste, mas sempre meigo, daquela voz que tinha sempre um tom de
carinho para quem fosse e uma lagrima saiu de seus olhos e pensou.
- Tenho que falar com meus filhos, algum de nós tem que ver a Maria,
saber se está bem, a sua voz não estava alegre quando ontem ela
telefonou. Magicou
uma maneira de resolver esse assunto ate que uma ideia brilhante lhe
passou pela cabeça. -
Porque não Joana? Ela está em lua de mel no Algarve, de caminho a casa
pode passar por Peniche para ver a Maria.....
- E sorrindo dirigiu-se ao telefone para falar com a Joana. -
Joana, filha, ontem falei com a Maria ao telefone, não me parecia nada
bem, porque não passas por lá e a visitas? -
Sim mãe. - Disse sorrindo a Joana - Eu e o Eduardo já tínhamos falado
nisso ontem, quando voltarmos para casa passamos por lá e aproveitamos
e ficamos dois dias a fazer companhia á Maria, ela vai ficar feliz
mãe. - E com uma voz emocionada disse: -
Mãe, eu tenho tantas saudades da Maria, ela pensa que por eu me ter
casado que não me preocupo com ela, mas não se passa assim, eu não
queria que ela fosse para longe de nós. - Ao acabar essas palavras
começou a chorar. -
Filha. - Replicou a Sofia. - Não podíamos impedir a sua partida, ela
não estava feliz, ela pediu a minha compreensão, porque ela precisava
de viver a sua vida, procurar a sua felicidade e eu Joana tinha que a
dar, embora com o coração pequenino, mas filha, a tua prima tem o
direito de a procurar, como tu a procuraste e a encontraste, ela também
a vai encontrar, minha alma de tia (mãe) sabe que isso vai acontecer,
eu pressinto que a felicidade da Maria esta para breve, a sua felicidade
está junto aquele mar, vamos torcer juntas para que isso aconteça. -
Dizendo isso sorrindo, despediu-se da filha e desligou o telefone. Seguiu
para as suas tarefas, mas sempre pensando na Maria, algo estava mal, ela
não tinha por habito magicar e repensar assim numa pessoa e o seu
pensamento esta irradiado para a Maria como uma obsessão e como a sua
inquietude a não deixava trabalhar dirigiu-se para o quintal. -
Quem sabe apanhando um pouco de ar me passe essa maluqueira.
- Pensou ela abrindo a porta da entrada empurrando os seus passos para a
direcção das flores. -
Bom dia vizinha Sofia. Que cara é essa?- Disse o Manuel o vizinho do
lado, um rapaz da aldeia que era amigo de seus filhos e da Maria. -
Vê lá tu Manel que hoje acordei a pensar na Maria e estou preocupada
com ela, ontem falei com ela ao telefone e não me pareceu nada bem. -
Porque não vai visitá-la D. Sofia? - Perguntou o Manel. -
Não posso, como iria estar fora tantos dias? E os meus filhos? -
Olhe D. Sofia. - Disse sorrindo o Manel - Tenho a solução nas mãos,
eu amanhã vou a Lisboa, se quiser levo-a até Peniche, deixo-a lá e de
volta apanho-a e trago-a, só vou por dois dias e que são dois dias?
Até vai-lhe fazer bem sair daqui, pense nisso e logo dê-me uma
resposta. Tia
Sofia, ficou a pensar na proposta do Manel e disse para si. -
Porque não? Os meus filhos já são uns homens, Joana esta fora, porque
não me distrair, aproveito e descanso esse meu coração que não está
bem de tanta preocupação por Maria! - Se bem o pensou melhor o
fez, foi a seu quarto preparou umas peças de roupa pegou na sua malinha
e deixou-a pronta pensando. -
Vou sim, vou ver a minha Maria,
aproveito e levo-lhe a sua fruta preferida, ela deve estar passando mal,
ela sempre comeu tão pouco, agora sózinha ainda pior. - Ficou
feliz e feliz seguiu para a loja da esquina fazer umas compritas para a
Maria. Eram
dezanove horas quando o Manel chegou a casa, a Sofia ouviu o carro do
seu vizinho e dirigiu-se à porta. -
Manel?!... Tens razão, vou aproveitar a tua boleia e vou ver a Maria, a
que horas partes daqui? - Perguntou a Sofia. -
Que bom D. Sofia. - Disse o Manuel batendo-lhe no ombro. - Vai ver que
não se vai arrepender e em pouco tempo terá a sua Maria nos braços e
vai ver que isso é apenas preocupação de Mãe, porque D. Sofia a
senhora tem sido uma mãe para ela. - Disse o manelito sorrindo. -
Sim Manel, a Maria também é minha filha, minha filha de criação,
amo-a como amo os meus filhos. - Disse a Sofia com a lagrimazita ao
canto do olho, mas um sorriso de felicidade nos seus lábios. -
Então combinado D. Sofia, às seis da manhã esteja aqui em frente á
sua casa e partimos. - Dizendo isso despediu-se entrando em casa. À
hora do jantar a Sofia comunicou a sua decisão aos seus filhos e eles
deram-lhe todo o apoio, eles também estavam preocupados com a sua prima
e o Jorge o primo mais velho levantou-se da mesa foi a seu quarto e
quando regressou trazia umas quantas notas na mão dizendo. -
Mãe dê este dinheiro á Maria , ela pode estar precisando e a mim ele
não me está fazendo falta, a vida lá é muito cara e não quero que
minha prima passe por dificuldades, até ela arranjar emprego, muito tem
que gastar com o curso que está a tirar. - E feliz estendeu a mão à
mãe que agarrou no dinheiro emocionada. -
Tenho os melhores filhos do mundo. Que quero eu mais da Vida. -
Agarrou-se a eles e apertou-os com força, com força de mãe, com a
força que o amor permite dar. Seis
da manha, a tia Sofia já está a pé, à porta da sua casa esperando o
Vizinho Manuel chegar, está ansiosa, de ver a sua Maria, de a abraçar,
de saber como ela está e tão absorta esta nos seus pensamentos que
não sente o vizinho chegar. -
Bom dia D. Sofia. - Diz ele e sorrindo com o salto que ela deu. -
Nem te vi chegar - Disse a tia Sofia sorrindo também.- Estava aqui nos
meus pensamentos. -
Vamos? - Disse Manel pegando no saco da Sofia e coloca-o no carro e
abrindo a porta para a tia Sofia entrar.
Depois
de aconchegados nos seus lugares lá partem a caminho de Peniche e
durante o caminho conversam muito, falam de tudo, da vida, dos filhos da
tia Sofia, da namorada de Manuel e sem que dessem por isso chegaram a
Peniche três horas depois. O
Manuel antes de se retirar, levou a tia Sofia á academia para se
certificar que ela estava entregue. -
Bom rapaz este. - Pensa para consigo a tia Sofia, entrando na
academia. - Merece ser feliz,
merece uma mulher que o ame e o respeite. Bateu
a uma porta que estava à entrada , porta essa que não era outra senão
a do gabinete do Costa. -
Bom dia Senhor. - Disse a Sofia. -
Bom dia Senhora, deseja algo? - Pergunta o Costa muito gentil. - Em que
posso ser útil? -
Sou a tia da Maria, a moça que veio do interior. Sabe-me dizer se ela
se encontra aqui? É que não sei onde ela vive, se não tinha ido á
casa dela. - Disse a tia Sofia. -
Sim Senhora, a Maria esta nas aulas, são onze da manhã e as aulas
acabam ao meio dia, se a senhora não se importar de esperar eu levo-a
à sala de reuniões, há lá uma televisão, ofereço-lhe um café e a
senhora entretém-se esperando a Maria sair das aulas. -
Obrigada senhor. É gentileza sua, mas eu espero lá fora. -
De maneira nenhuma senhora, eu levo-a a sala, importa-se de me seguir! Sofia
estava admirada com a amabilidade daquele senhor e seguiu-o ate à sala
de reuniões. Chegando lá o Costa fê-la sentar-se , dirigiu-se a um
bar que se encontrava na esquina da sala, tirou uma café que ofereceu
á tia Sofia, que agradeceu sorrindo. Uma
hora depois, meio dia, as aulas da manhã acabaram, a Maria dirigia-se
para o refeitório, quando o Costa a chamou. -
Maria por favor, importas-te de chegar aqui? -
Sim, senhor Costa? Algum problema? - Indagou a Maria com o semblante
preocupado. -
Não - Sorriu ele. - Nada de mal, pelo contrário, vais a sala de
reuniões e tens lá uma surpresa. -
Uma surpresa Sr Costa? - Mais uma vez perguntou a Maria. - Que surpresa? -
Maria, se eu te dissesse deixaria de ser surpresa. - Disse o Costa,
empurrando-a carinhosamente. Ele tinha aprendido a respeitar aquela
rapariga, a sentir por ela um carinho que não tinha pelos restantes
alunos, ela parecia-lhe uma alma só, abandonada e ele pensou na sua
filha e sentiu que poderia ser ela a estar no lugar da Maria e aprendeu
a vê-la como uma filha que se quer só o bem. Maria
seguiu para a sala de reuniões, ia para abrir a porta mas sentiu
receio. -
Que surpresa será essa Meu Deus?
- Pergunta a si baixinho, pondo suas mãos no coração. -
Seja o que for, eu tenho que ser forte. Não o tenho sido ao longo
desses anos todos? Porque não agora?.
Decidida empurrou a porta, abrindo-a de par em par.
-
Não, não. - A Maria gaguejava . Ela não estava crendo no que estava vendo. -
Tia Sofia , tu aqui? Tia Sofia... -
Calma rapariga, sou eu sim, vem, chega aqui, da um abraço à velhota. -
Puxando a mão da Maria ainda trémula, agarrou-a e beijou-a muito, para matar
todas as saudades dos dias que não a via. -
Tia Sofia, que bom estares aqui, como adivinhaste que eu precisava do teu
abraço hoje? - Disse a Maria beijando as faces da tia. -
Eu não adivinhei filha, eu conheço-te tão bem e a tristeza da tua voz ontem
deixou-me preocupada, telefonei a Joana para vir cá visitar-te quando saísse
do Algarve, mas como o Manel, o nosso vizinho vinha a Lisboa eu não pensei
duas vezes e vim com ele. Eu tinha que te ver Maria, estava tão preocupada
contigo filha. - Dizendo isso duas lagrimas soltaram-se de seus olhos já
enrugados pela dureza da vida. -
Tia, eu estou bem, só estou triste, sinto-me sózinha, mas de saúde estou
bem, mas vamos, vou-te mostrar o meu quarto, deixas lá as tuas coisas, depois
vamos almoçar e esta tarde não vou às aulas. - Disse a Maria sorrindo. -
Esta tarde quero estar só contigo, temos tanto para falar. - Empurrou a tia
docilmente para a entrada , chegou a sala do Costa, bateu á porta e conforme
ia entrando ia falando. -
Sr. Costa esta tarde não venho às aulas, importa-se de avisar o professor
Sérgio?
-
Sim Maria vai com a tua tia. Eu aviso-o. - Respondeu o Costa sorrindo para ela
com carinho. Chegaram
ao quarto, a Maria mostrou-o à tia, fê-la por as coisas em cima duma cadeira
e disse. -
Esta noite vamos dormir aqui as duas tia, como quando eu era pequenita e tinha
medo. Lembras-te? - Sorriu... -
Sim Maria não me esqueci dos teus catorze anos, a tua correria para o meu
quarto cheia de medo, mas isso já passou não falamos em coisas tristes,
agora vamos dormir as duas mas para falarmos, para recordarmos coisas boas. Saíram
do quarto abraçadas a rir, parecendo duas crianças felizes, porque suas
almas estavam felizes, suas almas estavam nas nuvens, onde não há medos, nem
solidão, mas sim um grande amor, uma grande cumplicidade e dirigiram-se ao
restaurante onda a Maria comeu pela primeira vez onde se sentaram e pediram a
especialidade da casa e falaram durante toda a refeição do passado e do
presente. -
Tia agora vou-te mostrar o meu cantinho, o meu refúgio, onde passo a minha
hora de almoço, onde sonho. Porque sabes que sou uma sonhadora incorrigível.
- Disse a Maria sorrindo. -
Se és Maria! A quem o dizes. - Replicou a tia Sofia abraçando a sobrinha. -
Vamos lá então ver o teu refúgio. Dirigiram-se
à praia da ancora azul, as ondas batiam ferozmente nas rochas como a dar as
boas vindas á Sofia, o Céu estava azul, sem uma única nuvem a escurecer
aquele momento. A Maria sentou-se na areia, pegou na mão da tia e fê-la
sentar-se a seu lado. O Seu olhar brilhava de felicidade, ela sentia-se como
nos seus oitos anos de idade, quando a sua mãe se sentava a seu lado na praia
e a acarinhava, enquanto a Maria rebelde deitava areia para suas pernas rindo
de alegria.
Uma
sombra passou por seus olhos fugazmente, mas logo se desvaneceu, ela estava
feliz com a sua tia e nada iria estragar esse momento maravilho, nem a
lembrança do Pedro a atormentou, porque a Maria pensou.
- Se deus me deu hoje minha tia, porque não irá me dar amanha Pedro? -
Pensando nisso um sorriso maroto apareceu nos seus lábios. -
Maria agora que estamos sós. - Disse a tia Sofia abrindo a sua mala. - Quero
dar-te isto que o teu primo te mandou. - E puxando dum saco deu o dinheiro a
Maria dizendo. -
Ele estava preocupado por não teres arranjado ainda emprego, aceita isto
filha. - A Maria abriu o saco e viu muitas notas juntas e replicou. -
Tia, eu não preciso de dinheiro. Eu tenho gasto pouco e é certo que não
arranjei emprego, mas a tia sabe que depois de tirar o meu curso de línguas
ainda sobrou dinheiro daquele que os meus pais me deixaram e ainda juntei mais
com o que me sobrava do ordenado de todos estes anos de trabalho, não posso
aceitar tia. -
Maria por favor não faças essa desfeita a teu primo, sabes que ele ama-te
como se fosses sua irmã mais velha, é compreensível a sua preocupação. -
Está bem tia, eu aceito-o, mas eu já estou procurando emprego e ontem passei
por um Instituto de Inglês e vi que precisavam de uma professora para as
aulas nocturnas, quem sabe não recebo duas prendas num só dia? A tua
presença e um emprego? - E sorriu feliz, esperançosa, acrescentando. - Logo
vais lá comigo e se me aceitarem, vou ser a mulher mais feliz deste mundo por
receber essa notícia na tua companhia minha mãe. A
tia Sofia emocionou-se ao ouvir aquelas palavras da boca da sua sobrinha,
nesses longos anos que a Maria estava consigo jamais poderia imaginá-la a
tratá-la por mãe e agarrou nas suas mãos e beijou-as com força,
balbuciando. -
Sim filha eu vou contigo a esse instituto e de seguida vamos às compras,
quero ver-te bonita, com roupas novas, calçado novo, eu quero a minha menina
como sempre foi, bem vestida e com um gosto característico da tua alma meiga. Ainda
estiveram mais uma hora na praia, a Maria abrindo o seu coração de
menina/mulher, confidenciando-lhe todas as suas amarguras em relação ao
Pedro e a sua tia estava abismada, ela sabia que a Maria em tempos tinha amado
um rapaz, pois sua Joana tinha-lhe contado, mas nunca pensou que o seu amor
durasse dezassete anos. Agora ela compreendia toda a amargura da sua sobrinha,
aqueles olhos sempre tristes, com uma névoa sempre a encobri-los, essa névoa
que não deixavam o seu azul brilhar, agora ela compreendia que a Maria tinha
que sair da sua gaiola dourado, procurar novos horizontes, nova vida, procurar
o homem da sua vida e rezou a Deus para que Ele fosse generoso com sua alma,
que a acalmasse, pondo-lhe nos seus braços o seu amor, o homem que sempre a
Maria amou. Quatro
horas da tarde, a Maria olhou o relógio exclamando. -
Tia as horas passaram sem darmos por isso, às dezassete horas tenho a
entrevista, vamos senão chego atrasada .- Disse sorrindo e pegando na mão da
sua tia para a ajudar a levantar-se. Seguiram
a caminho do Instituto e ás dezasseis e cinquenta estavam chegaram á entrada
do instituto. A Maria entrou, disse na portaria que tinha uma entrevista e
encaminharam-na para falar com a directora.
-
Boa tarde. - Disse a Maria estendendo a mão à directora. -
Maria muito prazer , sou a directora deste Instituto. - Disse a Senhora
entendendo sua mão também em direcção á de Maria. -
Então veio por causa da vaga que temos. -
Sim, mas há um problema, eu ando a tirar um curso durante o dia e só me dava
jeito se pudesse ficar com as aulas da noite. -
Óptimo Maria. - Replicou a directora.- Estávamos mesmo com dificuldades na
vaga da noite, ninguém quis ficar com ela, sabe, acabam as vinte e três e
trinta e nem toda a gente está interessada nessa vaga, sendo assim depois de
vermos o seu currículo e se nos agradar pode considerar a vaga sua. Maria
nem queria acreditar no que estava ouvindo. -
As coisas estão a correr-me bem demais. - Pensava a Maria puxando da sua
pasta e entregando uns papeis à directora. Fez-se
silêncio naquela sala. A Maria estava observando a senhora à sua frente,
nada lhe escapava, os seus gestos, o seu olhar a percorrer toda aquela
papelada e ficou tensa, os músculos da sua cara estavam contraídos na
expectativa duma resposta da directora. -
Bem. - Disse a directora pondo as mãos em cima da mesa fazendo silencio após
esse "bem". Maria
logo pensou.- Não lhe agradou o meu
currículo. -
Maria ...... Mais
uma vez fez silêncio e os nervos da Maria estavam a ficar em franja, mas seu
rosto nada demonstrou, esperou pacientemente pela negativa, porque era isso
que neste momento, estava esperando depois de tantos interregnos entre a
leitura e suas palavras. -
O lugar é seu. - Disse a directora sorrindo...- Gostei do seu trabalho, vejo
que parece ser uma pessoa meiga, inteligente, pois vez alguma me interrompeu e
eu propositadamente interrompi meu dialogo à espera duma ansiedade sua, sei
que a teve, mas soube se controlar, parabéns! Segunda pode começar a dar
aulas, vem uma hora mais cedo para lhe mostrarmos o Instituto, uma vez que
hoje é-me impossível fazê-lo, pois dentro de meia hora tenho uma reunião.
- Dizendo isso estendeu a mão mais uma vez para a Maria despediu-se. A
Maria saiu eufórica da sala da directora, seus passos pareciam eléctricos a
dirigir-se para a entrada onde a sua tia a esperava, chegando ao pé dela
abraçou-a chorando. -
Maria, que se passa? Não conseguiste o lugar? Deixa estar logo te aparecerá
outro. - Disse sua tia agarrando-lhe o abraço e olhando-a nos olhos com
carinho, limpando suas lágrimas ao mesmo tempo. -
Não tia, estás enganada, as minhas lágrimas são de felicidade porque
consegui o lugar, segunda feira já começo a trabalhar, a directora gostou de
meu currículo e aceitou-me. - Dizendo isso a Maria sorriu de felicidade, pois
ela já não estava habituada a sentir tantas boas emoções num só dia, daí
suas lagrimas jorrarem sem se poder conter.
Foram
as duas como tinham combinado para as compras e passou-se o resto do dia sem
que uma ou outra desse pelo passar das horas, elas estavam felizes, a Maria
por ter a sua tia a seu lado e por saber que segunda feira já começava uma
nova vida e a tia por ver que sua sobrinha estava começando a realizar os
seus sonhos, porque ela acreditava no seu coração de "mãe", que
um dia a Maria ainda haveria de ser feliz junto a um homem que ela amasse e se
ela sente que só o será com o Pedro que Deus lhe conceda esse desejo,... foi
o último pensamento da tia Sofia antes de adormecer. Nove
horas da manhã, o Pedro acordou e sentiu-se nostálgico, triste, ele ontem
tinha ido á academia para ver se via Maria, procurando-a por todos os cantos,
inclusive na praia junto à ancora azul porque o Sérgio tinha-lhe dito que
era lá o seu refugio e nada, sinal da Maria nenhum.... -
Que se passa? Porque não encontrei ontem a Maria na escola? Estará doente?
- Pensando nisso sentiu seu coração pequenino, apertado. - Ela doente e eu sem poder fazer nada? Não, eu posso sim, eu devo-lhe
isso. Em
sua memória reviveu o dia em que ele estava atrás do balcão, ardendo em
febre, sem forças no corpo e a Maria apareceu lá para fazer compras para a
mãe e vendo-o naquele estado perguntou porque não ia para casa ao que ele
respondeu que não podia porque seu pai tinha ido a Lisboa e não podiam
fechar a loja e a Maria saiu em silêncio, sem nada dizer, sem nada comprar.
Chegando cinco minutos depois com uma loção fria e uma toalha nas mãos,
fazendo-o sentar-se e começou a pôr-lhe compressas na testa, enquanto foi
buscar uma copo de água e fê-lo tomar o comprimido para baixar a febre. O
resto do dia a Maria já não o deixou atender ao balcão, ficando ela ali a
atender com sua meiguice, com sua
simpatia e o Pedro sentado numa cadeira dando-lhe instruções onde estavam as
coisas e qual o seu preço. -
Pedro depois disso, depois de te lembrares disso ainda consegues ser cobarde?
- Perguntou-se ele como se culpando e pensando assim dirigiu-se em direcção
ao quarto de Maria, na rua atrás da academia sem pensar nas consequências do
seu gesto, ele não pensava o que iria dizer a Maria assim que ela o visse,
ele só pensava que a Maria estava doente e ele tinha que estar a seu lado, o
que se passasse a seguir a Deus pertencia. Mas.....quando
estava chegando à esquina viu a Maria com a tia e ele reconheceu a senhora
que ele culpou todos estes anos da separação dos dois, mas hoje já homem
reconhece que foi essa senhora que fez de mãe de Maria, foi essa senhora que
a educou, que fez dela, a mulher que ela era hoje e olhando para as duas
afastou-se em direcção à praia com o seu coração já descansado, a sua
Maria estava bem, ela tinha faltado às aulas porque sua tia a tinha vindo
visitar. Entretanto
a Maria e a tia saíram de casa para ir esperar Joana e o marido que vinham
nessa manhã do Algarve e faziam uma paragem em Peniche, para ver a sua prima,
matar as saudades que tinham dela, das suas conversas e dos seus concelhos,
só que Joana desconhecia que ia ter uma surpresa a de ver lá também sua
mãe junto a Maria. Quando
chegaram à praia avistaram o carro de Joana, como a tia Sofia não sabia onda
a Maria morava disse à filha que esperasse na praia as dez e trinta da manhã
que ela avisaria Maria e assim foi. Joana quando viu a prima na companhia da
mãe nem queria acreditar, seu coração disparou de felicidade, já eram
tantas as saudades que tinha das duas, que saiu do carro a correr e sem dizer
palavra avançou para elas, abraçando-as com força, como se quisesse
arrancar delas toda a ternura que ambas lhe deram ao longos desses anos todos
em que viveu com elas.
A
Joana ainda era uma menininha, apenas tinha completado á poucos meses os
dezanove anos e como tal a mais nova da família, seu rosto de menina, deixou
transparecer todo o mimo que estava habituada a ter tanto da Maria como da
mãe. O
seu marido caminhava em direcção a elas, seu olhar estava enternecido a
olhar para aquele quadro familiar, como se sentia feliz de ver a sua Joana com
aquele ar de felicidade, ele sabia que sua menina foi feliz aqueles dias de
Lua de mel, mas sabia também que bem lá no fundo ela sentia falta da sua
mãe e da Maria principalmente, pois foram muitos anos de convívio, de
afectividade, de desabafos, de conselhos. Depois
de todos se cumprimentarem, a Maria propôs irem dar uma volta pelas praias de
Peniche, ela também não conhecia aquela zona e aproveitava a presença da
família para ir conhecer. Chegaram
à Praia da Consolação e a Maria descalçou-se deitando os seus sapatos por
terra e correu até á água. Nem aquele frio a fazia desistir dessa paixão
de molhar seus pés em cada mar que visse, molhou-os e ao sentir a água na
sua pele um arrepio se apoderou dela e com esse arrepio a lembrança do Pedro
veio á sua memória, esquecendo-se nesse momento que estava acompanhada e os
seus pensamentos voaram para bem longe, para onde acaba o mar e começa a
eternidade. Já
sentia que só voltaria a ver o Pedro na eternidade, ela já não acreditava
que algum dia pudesse voltar a se cruzar com Pedro, algum dia pudesse voltar a
olhar nos seus olhos e dizer-lhe baixinho ao ouvido -
Amo-te!. Olhou
para a ilha que circundava Peniche e sonhou como seria bom estar nela sozinha
com Pedro, sentir a sua presença, sentir suas carícias, partilhar
cumplicidades com ele, viver só para ele, viver na sua Ilha, a ilha de
ambos, a Ilha que eles construíram com carinho, amor, partilha, com
desabafos, carícias e com poemas lidos a viva vós por ele e
principalmente uma Ilha construída com o sonho da emoção, a emoção
que ambos sentiam ao ouvirem-se, ao tocarem-se. Um Mundo deles, só deles,
onde ninguém poderia penetrar, porque ninguém poderia compreender o seu
amor puro, sem máculas, sem ciúmes, um amor feito de compreensão, de
emoção, cheio de vida onde o tempo deixa de ser tempo e passa a ser um só
minuto interminável, porque ambos sabiam que tinham todo o tempo do mundo
para se amarem, para se verem, para se falarem, para se sentirem na
integra. -
Maria. - Chamou Joana, aproximando-se da prima, deixando seu marido com a
mãe. - Maria. - Voltou a chamar tocando-lhe suavemente no ombro para não
a assustar, pois ela sabia que a prima estava bem longe nos seus sonhos.. Maria
olhou a prima e sorriu mas com uma expressão triste no rosto, que bem
transparecia toda a amargura que a sua alma transportava. -
Sonhando novamente prima? - Indagou Joana tristemente, doía-lhe ver a
Maria naquele estado de sofrimento e dizendo essas palavras abraçou-a
fazendo a Maria encostar a sua cabeça nos seus ombros e deixar correr as
lágrimas que queriam-se esconder. - Chora prima, chegou a minha vez de
fazer de tua mãe. Eu sei que sou muito mais nova que tu, eu sei que foste
tu que ajudaste minha mãe a criar-me, enquanto ela ia trabalhar tu
ficavas a tomar conta de mim sacrificando os teus estudos, foste tu que
fizeste de mim a mulher que sou hoje, a ti devo a minha felicidade e
chegou a hora de eu te proteger minha prima. Maria
comoveu-se com aquelas palavras , não aguentando mais chorou no ombro da
sua prima, dizendo palavras de desespero, deitando cá para fora toda a mágoa
que lhe ia dentro do peito. Lá
longe sentados no paredão, o Eduardo e a Sofia olhavam para elas,
compreendo o que se estava a passar e esperaram pacientemente. Ambos
sabiam que as duas precisavam de estar juntas, ambos sabiam que a Maria
precisava do ombro de sua prima nesse momento. Entreolharam-se e o Eduardo
agarrou na mão da sogra para lhe dar força, sentiu que aquela cena lá
em baixo, junto ao mar fazia-lhe partir o coração, sabia o quanto a
Maria era importante para ela. As
duas separaram-se, sorriram uma para outra e lá foram ao encontro da
Eduardo e a Sofia. Quando chegaram perto deles a tia olhou-as e em
silencio deu a mão a Maria pedindo ajuda para se levantar, como se não
se tivesse apercebido o que se tinha passado lá em baixo junto ao mar. Joana
olhou para o seu marido e num gesto de cumplicidade deu-lhe o braço e
sorriu, sorriso que ele correspondeu a dar apoio à sua acção de há
pouco perante a prima. Foram
visitar toda a zona balnear fazendo comentários aquela beleza sem igual.
Olharam para o relógio e viram que já eram dezasseis horas e tinham que
começar a pensar onde iam jantar para depois o Eduardo e Joana seguirem
viagem. Pararam para escolher o local onde iam jantar ao mesmo tempo que a
Maria os convidava a ficarem em Peniche essa noite, para no dia seguinte
ela poder usufruir da sua companhia.. A
Joana com os olhitos brilhantes pediu ao marido para aceitar a oferta de
Maria. O Eduardo mais uma vez não soube como recusar perante aqueles
olhos melosos que lhe suplicavam para ficar junto à prima e sorrindo
disse: |
|
-
Está bem então, proponho uma coisa. -
O que? - Três vozes se deixaram ouvir em uníssono. -
Vamos jantar à Nazaré, alugamos lá 2 quartos e pernoitamos por lá.
Como não conheço a Nazaré e Joana também não, fazemos assim e amanhã
de manha levamos a Maria e a mãe a Peniche e seguimos para casa. As
três concordaram, dirigiram-se para o carro e foram para Nazaré e
durante o caminho iam apreciando como era linda a costa oeste, toda
rodeada de mar, passando por São Martinho do Porto, fizeram uma paragem
para beberem um café e apreciar aquele mar calmo para um dia de Inverno,
aquela praia linda que fazia a delicia dos visitantes. Seguiram
viagem e ás dezassete horas chegaram à Nazaré onde estacionaram o carro
e foram procurar alojamento e qual o espanto dos quatro quando viram
aquelas mulheres com as suas saias rodadas a oferecerem quartos para
alugar, viram muitas com cartazes ma mão a indicarem que os alugavam.
Entreolharam-se indagando uns aos outros se valeria a pena aceitar esses
quartos ou procurar uma residencial. A Maria como já tinha ouvido falar
nessa mulheres que alugavam quartos e que as casas eram boas e os quartos
muito limpos sugeriu que aceitassem o que todos concordaram e seguiram em
direcção a uma que vendo-os, logo se levantou perguntando se estavam
interessados num. Aceitaram
a proposta e seguiram a mulher que todo o caminho ia falando muito e
explicando que a Nazaré era uma das praias mais características da zona,
porque ali ainda viviam do peixe do aluguer dos quartos, do Turismo, o que
tornava essa praia muito conhecida, não só pela sua beleza mas também
pelo comércio, um comércio muito próprio deles, os Nazarenos.
Chegaram
a uma casa de rés do chão, pintada de branco com uma entrada em madeira
preta, o que fez com que estranhassem ao que ela explicou que assim a
maresia, a humidade do mar não se deixava notar com o passar dos anos,
pois a casa ficava virada para o mar. Entraram e depararam com uma casa
com um grande corredor, iluminado com umas candeias de uma luz ténue e
uma Nossa Senhora a ser iluminada por elas o que dava ao ambiente uma
sensação de paz, de armoria, pois essa penumbra fazia contraste com os
olhos da imagem que estava iluminada parecendo que nossa Senhora os abençoava
com seus olhos logo à sua entrada. Havia
vários quartos com casas de banho particulares e quem visse essa casinha
do lado de fora nunca diria que era tão grande por dentro, que a sua
extensão era sobre o comprimento. O que dava a ideia do lado de fora duma
casa pequena. A
mulher foi abrindo alguns dos quartos vagos e perguntou se desejavam o único
que restava virado para o mar. Maria
sorriu, olhou a tia e pediu que ficassem com esse, tendo Joana concordado
e na brincadeira comentou: -
Claro senhora. Então a nossa Maria do mar não iria ficar nesse virado
para o mar? -
Maria do mar? - Indagou a senhora! - A Maria do Mar sou eu. - Disse ela
muito baralhada já com aquela conversa. -
Sério? Perguntou Joana. - A senhora Chama-se Maria do Mar? -
Sim. - Respondeu a mulher.
-
Sabe senhora esse é o nome que desde miúda eu dou a minha prima porque
ela chama-se Maria e a paixão dela é o mar. A
mulher olhou para a Maria e comovida comentou. -
Que a Senhora a abençoe menina, sua paixão não está só no mar, está
também na sua beleza e na cor de seus olhos. Reparem como a cor dos olhos
da menina são iguais ao das Senhora da Nazaré?! - Dizendo isso virou a
sua cabeça para a imagem que estava no corredor, acrescentando essas
palavras. -
Sua felicidade irá o mar trazer-lhe menina, será junto ao mar que irá
encontrar toda essa paixão que os seus olhos transbordam, será junto a
ele que irá encontrar o amor da sua vida, se ainda não o encontrou. -
Disse isso como uma premonição, com voz rouca da emoção. Fez-se
um silêncio fúnebre naquele quarto , todos os olhos se cruzaram com os
da Maria que não escondeu a tristeza que aquelas palavras lhe trouxeram
ao seu coração dorido. Lá
longe em Peniche o Pedro preparava-se para ir jantar a casa da Luísa e o
Sérgio que o tinham convidado, quando souberam pelo Costa que a Maria
estava com a sua tia esse fim de semana. Não o queriam só, pois sabiam
como estava sendo difícil essas horas de solidão desde a chegada da
Maria a esta cidade e sabiam do seu sofrimento por não ter coragem de se
aproximar dela, pelo medo de destruir um sonho de dezassete anos, se a
Maria lhe dissesse que não o amava. Acabou
de se preparar, abriu a escrivaninha, pegou num papel de cor parda
embrulhado numa fita cor de rosa em forma de laço, como se fosse uma
prenda para oferecer a alguém e saiu de casa em direcção a casa de seu
amigo.
-
Boa noite querida afilhada. - Disse o Pedro a Luísa dando-lhe um beijo no
rosto. - Como está o meu afilhadito? - Perguntou apontando seu dedo para
a barriga da Luísa. Ainda
não se tinha dito mas a Luísa na quinta feira passada tinha recebido a
notícia, a cegonha iria visita-los em breve e como não poderia deixar de
ser, o Sérgio saiu logo a correr a contar ao seu amigo para com ele
partilhar esse momento de alegria de emoção e fazendo dele logo o
padrinho do bebé. -
Está a correr tudo bem Pedro. Sinto-me bem! O Pedrito anda a portar-se bem.
- Disse a Luísa sorrindo. -
Pedrito? Como sabes que é rapaz? - Indagou o Pedro sorrindo. -
Se for, terá o nome do padrinho. Se for menina logo se verá, quem sabe
... - Um sorriso maroto surgiu nos seus lábios, sorriso esse, que
o Pedro entendeu de imediato e a Luísa continuando a sorrir pegou no braço
do Pedro e seguiram até a cozinha onde estava cozinhando, pois o Sérgio
estava no banheiro tomando um duche. -
Toma Luísa lê isso e diz-me se não estou endoidecendo. - Dizendo isso
esticou a sua mão entregando aquele papel embrulhado em fita rosa. Luísa
pegou nele e com delicadeza desembrulhou-o da fita, abriu-o e seus olhos
deparam com um poema com o Título " A TI MARIA". Leu
vagarosamente como querendo absorver todas aquelas palavras, uma a uma,
partícula a partícula e sentiu uma mágoa muito grande, ao ver aquele
amor tão intenso não ser partilhado, não ser retribuído com a mesma
intensidade, com o mesmo valor. Ninguém ainda sabia que o amor da Maria
era tão grande quanto o do Pedro, só que desencontrados, pelo destino,
pela vida que tinha sido madrasta para eles.
-
Vais entregar-lhe esse poema Pedro? -
Como Luísa? Diz-me como se ela nem sabe da minha existência . - Replicou
Pedro. -
Vai ter com ela, procura-a e enfrenta esses medos, essa cobardia, sofres
mais assim do que enfrentando a verdade nua e crua. -
Não - E com esse não, o Pedro dirigiu-se à sala onde ouviu a voz do Sérgio
chamando-o, esquecendo-se do poema nas mãos da Luísa. Luísa
guardou o poema numa gaveta e na sua cabeça mais uma vez pensou numa
maneira de fazer chegar às mãos da Maria esse e os restantes poemas que
se encontravam na sua posse. -
Já sei - disse
a Luísa batendo na testa, - A Maria
não chegou a vir cá a casa lanchar, amanha passo pela Academia, apanho-a
e trago-a cá a casa e como quem não quer a coisa, enquanto preparo o
lanche deixo em cima da mesinha os poemas desse casmurro, ela há-de lê-los,
hão-de chegar a suas mãos, não me chame eu Luísa. - Sorriu feliz
da sua ideia brilhante e pegando na travessa da comida levou-a para a sala
para servir o jantar. Não
se falou mais na Maria nem em problema algum, o jantar
correu na maior armoria, houve risos e projectos felizes em relação
á chegada do bebé e quando deram pelas horas tardias, tinha-se passado
um serão maravilhoso, um serão onde a amizade pura foi o factor
principal. Do
outro lado na Nazaré a Maria e a sua família foram visitar a terra as
suas lojas e foram ao Sítio da Nazaré, local indicado pela dona da casa
onde eles iriam dormir, sítio que não se pode deixar de lá ir tal a
grandeza da sua beleza, coisa que eles comprovaram, assim que lá
chegaram.
Uma
grande Praça com a Igreja a embeleza-la, rodeada de lojas e de
restaurantes com aquelas ruazinhas estreitas como a pedirem para nelas
circularem devagar, com calma, o miradouro que deixa ver sua vista de cima
como um espectáculo da natureza, lá em baixo o mar e suas rochas como a
convidarem a um mergulho de lá de cima e as pessoas passeando no paredão
da praia pareciam formigas vistas de cima, tão pequenas se viam. Estavam
os quatro maravilhados com tamanha beleza, já tinham ouvido falar da
Nazaré, mas não calculavam que ela fizesse surtir esse efeito de paz de
tranquilidade na alma das pessoas que por lá passam. Jantaram
lá mesmo no local, um jantar também agradável e a Maria por horas
esqueceu os seus problemas e deixou-se influenciar por tudo aquilo, por
todo aquele ambiente que faz ver e sentir que a natureza tem belezas
inigualáveis. Domingo,
a Maria levantou-se cedo, ainda não eram sete da manhã, preparou-se em
silencio para não acordar a sua tia e saiu de mansinho para ir ver o mar,
para senti-lo como ela sabia senti-lo quando estava sozinha. Atravessou
a estrada, parou extasiada ao ver aquele mar revolto, como a chamá-la,
como a fazer-lhe um convite para nele entrar, as ondas gritavam seu nome várias
vezes cada vez que batiam nas rochas, como um hino à paz, ao amor, à
calma à beleza e nesse estado de espirito a Maria deixou-se estar ate
sentir as mãos de sua tia nos seus ombros a chama-la para irem tomar o
pequeno almoço e regressarem a Peniche. Doze
horas badalaram na torre da pequena igreja quando o Eduardo e Joana
deixaram a Maria e a tia em Peniche e seguiram viagem, porque o Eduardo na
segunda feira iria trabalhar e tinham que chegar a casa ainda cedo para
ele poder descansar para começar novamente a sua vida de trabalho, sem
antes Joana se abraçar à prima e mais uma vez ambas ficaram lavadas em lágrimas,
era muita a união entre elas, eram muitas as saudades que ambas sentiam
uma da outra, mas a vida é mesmo assim, feita de saudades e de
desencontros.
Às
dezanove horas também sua tia se iria embora para a terra, Manuel
passaria por lá para a apanhar conforme tinham combinado na sexta feita.
Ela poderia ter ido com a sua filha, bastava telefonar a Manel, pois ele
tinha-lhe deixado o seu número de telefone caso ela precisasse de algo,
mas ela preferiu ficar mais uma horas com Maria, o que a mesma agradeceu. A
Maria tinha em mente arranjar uma casinha caso conseguisse o seu emprego,
o que aconteceu e como ela já tinha visto à dias uma para alugar onde
dizia que se poderia ir vê-la a qualquer dia da semana até as dezoito
horas. Ela aproveitou a estadia da sua tia junto a ela para lhe dar opinião
sobre a casa. -
Tia eu à dias vi uma casa para alugar, este quarto sufoca-me, eu preciso
de espaço, eu preciso de me movimentar, ter as minhas coisas e como
consegui o emprego tu queres ir comigo vê-la? - Perguntou a Maria a sua
tia. -
Sim Maria. - Respondeu a tia. - Eu já ontem tinha pensado nisso, este
quarto não te dá a liberdade que teu espírito precisa, só não te
disse nada porque não queria de modo algum interferir na tua vida
particular. -
Tia porque não me falaste nisso? Sabes que tua opinião para mim vale
muito. - Disse a Maria abraçando-a e puxando-a para a saída agarrando na
sua mala e na de sua tia. Dois
quarteirões mais a frente pararam em frente a um prédio de três andares
de aspecto harmonioso que não teria mais três a quatro anos e cujas
paredes ainda não demonstravam a humidade que se faz sentir nas casas em
frente ao mar.
Tocaram
no segundo andar e alguém de dentro abriu a porta. A Maria e a tia
subiram e depararam com uma senhora de aparência simples, mas com vestígios
de ter sido uma pessoa bem tratada pela vida, a sua pele bem tratada para
a idade que aparentava ter, ai uns cinquenta e as suas roupas de bom
gosto, mas dentro da simplicidade, com olhos claros, todo um conjunto que
agradou á Maria ao olha-la e pensando como seria agradável conseguir
aquele apartamento e ter como vizinha uma pessoa daquelas que parecia ser
uma senhora doce. -
Bom dia Minha senhora. - Disse a Maria seguida da voz de sua tia. -
Bom dia. - Respondeu a senhora. - Vieram ver o apartamento? -
Sim, estou interessada em arranjar um apartamento e como este esta vago,
aproveitei e vim vê-lo. - Respondeu a Maria. -
Muito bem.- Disse a senhora, entrando em casa, aparecendo de seguida com
uma chaves. -
Vamos, o andar vago é no primeiro andar, é o único pequeno que temos,
mas muito agradável. - Continuou falando enquanto desciam as escadas . -
Sabem? Aqui vivia minha filha, mas como se casou o Mês passado, pensamos
alugá-lo, a sala e a cozinha estão mobiladas, mas o quarto não, ela
insistiu em levar a mobília do quarto, portanto se a menina ficar com o
apartamento, terá que a comprar. Abriu
a porta e a Maria deparou com um grande Hall de entrada que dava acesso
para a sala apenas com uns degraus e um arco feito em Pedra a dividi-los.
Entraram na sala de decoração simples mas com gosto, uma lareira ao
canto, com um candeeiro, feita da mesma pedra que o arco, ao centro, uma
mesa de sala de jantar com o tampo em vidro e cujas pernas mais uma vez
feitas da mesma pedra e seis cadeiras a condizerem. Em frente à lareira
um sofá duplo, verde escuro do mesmo tecido das cadeiras, virado para um
móvel pintado, também de verde que apenas tinha uma televisão e uma
estatueta em Pedra.
A
Maria olhou tudo com atenção e sentiu uma paz ao ver toda aquela decoração
em verde e pedra, aquele gosto simples mas requintado e pediu para irem
ver o resto da casa para posteriormente falarem em preços. A
cozinha era pequena mas mais uma vez imperava o bom gosto, a placa do fogão
com o forno por baixo em inox, um frigorifico também em inox e ao canto
uma bancada a servir de mesinha de refeições apenas com dois banquinhos.
-
Tudo lindo - Pensou Maria- Aqui
está uma casa que eu gostava de habitar. Seguiram
para o quarto que também não era grande e depois para a casa de banho,
também não muito grande, mas com os elemento da mesma de bom gosto e
tendo em cima da bacia um pormenor que a Maria adorou; O Espelho estava
envolvido da mesma pedra que a sala, tendo no canto encrostada na pedra
uma flor pintada de verde, que dava beleza ao espelho. A Maria adorou
tudo, tudo condizia naquela casa, foi tudo visto em pleno silêncio, sua
tia só olhava e viu na expressão do rosto da sua sobrinha que a casa lhe
tinha agradado, como a si. -
Bem. - Balbuciou a Maria . - Gostei bastante, com a particularidade de ela
estar virada toda para o mar, o que me leva a crer que o seu preço vai
ser alto. A
Senhora disse quanto estava a pedir pelo aluguer dela. A Maria pediu um
segundo e chamou a tia á parte e pediu a sua opinião. -
Tia que achas? È um pouco caro para as minhas posses não? Ainda por cima
tenho que pagar o aluguer adiantado de um mês e sabes que só segunda é
que vou começar a trabalhar, não contando com a cama que terei que
comprar.
-
Maria. - Respondeu a tia. - Tu adoraste a casa, tanto como eu, o teu primo
adivinhou quando te mandou aquele dinheiro. Servirá para a casa é para o
que ele servirá. - E beijando a sobrinha continuou . -
O primeiro mês sou eu que pago o aluguer. Ficas com a casa, eu não te
quero ver naquele quarto sem telefone, sem eu poder entrar em contacto
contigo, sabendo que te movimentas sem liberdade. Meus filhos já não
precisam de mim, neste momento só tu é que precisas e será a ti que vou
ajudar neste momento. - Sorrindo acrescentou. - Um dia ajudarás tu esta
velhota. -
Minha tia .... Minha mãe. - Disse a Maria limpando uma lágrima, da emoção...
Como alguma vez eu vou poder pagar o que fizeste por mim todos estes anos?
Tu foste minha tia, minha mãe e eu só te descobri dezassete anos depois.
Eu não me perdoo - Dizendo isso pegou na sua mão e beijou-a com força,
a força da emoção que estava sentindo naquele momento. -
Ficamos com a casa. - Disse a tia à senhora assim que chegaram perto
dela, abrindo a carteira e puxando do dinheiro para o pagamento do aluguer
pedido inicialmente. Ainda
ficaram mais meia hora acertando todos os pormenores, até que a senhora
saiu, deixando-as a sós, já Maria com a chave nas mãos. Voltaram
a ver tudo ao pormenor, fazendo planos do que a Maria haveria ou não de
comprar para mobilar o resto da casa. -
Maria tens lá as tuas coisas que foste comprando ao longo destes anos. -
Disse a sua tia. - O Manel todas as semanas vem a Lisboa e na próxima eu
mando-as por ele e mais alguma roupas do enxoval da tua mãe que guardei
para ti.
-
Da minha mãe? - Interrogou a Maria com um sorriso e os olhos a brilhar. -
Sim filha, a tua mãe deixou uma mala cheia de roupas e com elas estão lá
as tuas fotos as da tua mãe e do teu pai e as cartas deles que se
escreveram quando ele estava na tropa. Tenho lá tudo guardado no anexo,
nunca te disse nada, mas chegou a hora de veres e teres aquilo que te
pertence. -
Ho tia obrigado. - Replicou a Maria emocionada. - Nem sei como esperar
pela semana que vem. Eu nem acredito que vou ver as coisas da minha mãe,
as lembranças estão-se esfumando da minha memória, ainda me lembro de
algumas coisas, mas já bem pouco, o tempo apagou aos poucos as imagens de
minha infância, mas tia...... só não apagou a dor que trago no meu
peito. -
Um dia ela desaparece de vez Maria. - Disse a sua tia acariciando o seu
rosto. - Repara como em poucos dias a vida te tem oferecido tanto. -
Sim tia, tens razão. - Disse sorrindo, quase um sorriso alegre apareceu
nos seus olhos. -
Estou a ser injusta. A vida tem-me dado tanto ultimamente, que só tenho
que agradecer. Com
estas palavras saíram do apartamento e dirigiram-se para a porta da
Academia, pois estava sendo horas de Manel passar por lá para levar a tia
Sofia para casa. Chegando
à Academia, viram logo o carro de Manel, estacionado em frente. Vendo-as
saiu do carro e aproximou-se delas, dizendo a sorrir: -
Então meninas, como foi o fim de semana? Maria como estás bonita. - Um
sorriso maroto aflorou seus lábios. - Se não estivesse para me
casar...... - E voltou a sorrir agora em uníssono com a Maria e a Sofia. -
Manel trata bem de minha tia. Não a deixes andar triste à volta das suas
flores. - Disse a Maria sorrindo. -
Como adivinhaste Maria? - Disse Manel. - Foi assim que a encontrei-a na
Quinta feira, tristonha, a suspirar por ti menina. - Sorriu olhando com
carinho para a Sofia. -
Eu não conheço a peça que me criou Manel? - Dizendo isso abraçou a sua
tia com o carinho estampado no rosto e afagando suas faces com uma carícia.
- Leva-a e cuida dela no caminho. Abraçaram-se
mais uma vez em silêncio, um silêncio que falava por si, que não
precisava de palavras. Um gesto, um carinho e fizeram essa despedida que
tanto estava a custar a ambas. Sofia
entrou no carro e Manel depois de se despedir da Maria entrou também
dizendo-lhe adeus com as mãos e ela ficou ali parada a ver o carro
desaparecer. Suspirou,
mas uma calma se apoderou dela, sua tia tinha-se ido embora, mas tinha-lhe
deixado paz, carinho, a lembrança duma mãe de criação, que a soube
amar em silêncio, sem grandes alaridos e que agora no momento certo
deixou soltar todo esse amor guardado durante dezassete anos. A
Maria deitou-se na cama depois dum banho relaxante. As emoções tinham
sido muito fortes esse fim de semana e a Maria sentia-se cansada, exausta,
mas feliz, pensando na sua prima na tia e na nova casa, adormeceu com um
sorriso nos lábios.
Maria
acordou, espreguiçou-se, voltou-se para o lado para dormir novamente,
mas..... -
Ai, hoje é segunda feira, tenho
aulas e logo o meu primeiro dia como professora aqui em Peniche,
levanta-te Maria.- Disse ela para si sorridente. Deu
um salto da cama, tomou um duche e foi ao guarda fatos escolher umas das
roupas bonitas que tinha comprado na sexta feira com a sua tia . Ela hoje
queria estar bonita, como se sentia por dentro, alegre, optimista e se
assim se podia dizer, quase feliz. -
Bom dia Maria. - Disse o Sérgio ao cruzar-se com ela num corredor da
Academia. -
Bom dia Professor Sérgio. - Sorriu para ele. -
Olha a Luísa mandou dizer que hoje passa aqui à tarde para ires lanchar
lá a casa com ela, como não chegaste a ir na quinta feira porque a Luísa
sentiu-se mal, ela vem-te buscar hoje se não tiveres nada para fazer. -
Não, só tenho um compromisso às dezanove e trinta. Fico à espera dela.
- E sorrindo disse. - Tenho duas novidades para lhe contar. Sérgio
sorriu e não se contendo, exclamou feliz. -
Ela também tem uma para te contar, mas eu não me posso calar. Eu vou ser
pai Maria .- Seus olhos transpareciam toda a felicidade que ele estava
sentindo. Mas deixa a Luísa dar-te a novidade, ela estava tão feliz hoje
a pensar na notícia que te ia dar.
-
Parabéns professor. - Disse a Maria emocionada com a emoção que se via
no rosto do seu professor. - Eu finjo não saber. Agora se me dá licença
as aulas já estão a começar. Bom dia e mais uma vez felicidades.- Saiu
sorrindo feliz ao ver a felicidade daquele casal jovem e simpático. A
Luísa às dezassete e quinze saiu de casa, par se encontrar com Maria,
sem antes ter deixado em cima da mesinha da sala, junto aos sofá, alguns
dos poemas do Pedro, aqueles que mais faziam vibrar qualquer pessoa que os
lesse, quanto mais um ser sensível como a Maria . -
Ela terá que senti-los, ela vai
ficar curiosa ela vai querer saber quem é essa poeta que tão bem exprime
os seus sentimentos, o seu amor. Às
dezassete e trinta a Maria acabou suas aulas e dirigiu-se para a entrada e
deparou com a Luísa à sua espera, foi ao seu encontro, deu-lhe um beijo
e reparou que a Luísa tinha uma expressão diferente, os seus olhos
brilhavam de felicidade. -
Boa tarda Luísa. - Sérgio disse-me que me esperavas. -
Sim, tenho uma linda novidade para te contar. - Dizendo isso os seus olhos
brilharam de felicidade. -
Conta sim Luísa, conta que eu adoro novidades ainda mais quando são
lindas novidades. -
Maria..... sabes? Eu estou grávida, eu estou esperando um bebé. -
Que bom Luísa. - Disse a Maria fingindo surpresa e abraçando-a. - Vai
ser o bebe mais lindo do mundo, vamos mima-lo tanto Luísa. - Dizendo isso
sorriu emocionada ao ver a emoção no rosto da sua nova amiga.
Entraram
no carro e durante o caminho de casa da Luísa, a Maria contou-lhe a
visita da tia e de seus primos, do seu novo emprego e da sua nova casa. -
Vens comigo escolher a mobília do quarto? Quero mudar para lá o mais
rápido possível . -
Claro que vou Maria. - Disse Luísa, mas amanhã tens que me mostrar a tua
nova casa. -
Queres lá ir agora? - Perguntou Maria. -
Não, hoje vamos à minha lanchar. - Um sorriso maroto apareceu no seu
rosto, ela tinha os seus planos já tão bem elaborados, em relação aos
poemas do Pedro, não ia deixar perder essa oportunidade. Chegaram
a casa, a Luísa fê-la entrar para a sala e sentaram-se as duas num
sofá, tendo a Luísa feito a Maria sentar-se mesmo em frente à mesinha
onde estavam os poemas, virados para cima, como se estivesse se convidando
para serem lidos. Luísa
olhou para eles, pegou neles e com indiferença comentou. -
Nem sabia que estavam aqui esses poemas, como vieram eles aqui parar? -
Indagou com um ar mais ingénuo deste mundo. E sorrindo diz. - Deve ter
sido o Sérgio. -
Maria, enquanto preparo o nosso lanche dá uma vista de olhos por eles e
verás quanta beleza eles contêm. - Dizendo isso levantou-se pondo os
papeis nas mãos de Maria, saindo de seguida para a cozinha. A
Maria começou a leitura e conforme ia lendo, seus olhos iam-se
emudecendo, não sabia o que se estava a passar consigo, ela que toda a
vida leu poesia, nunca algo desse género lhe tinha acontecido. -
Meus Deus, que se passa comigo? Porquê essa emoção como se eu
conhecesse esse poeta, de linda alma, como se esses poemas estivessem sido
dirigidos a mim. Tão
embrenhada estava na sua leitura que nem deu pela chegada da Luísa junto
de si e deu um salto quando ouviu a sua voz. -
Maria que tens? Porquê esses olhos brilhantes como se tivesses estado a
chorar? - Perguntou Luísa, ficando com a certeza nesse momento que a
Maria amava alguém e esse alguém só poderia ser Pedro. -
Desculpa Luísa. - Tentou disfarçar sua emoção mas não resistiu de
perguntar. -
Quem é esse poeta? Como se chama? Quem é essa mulher felizarda que é
dona dum amor tão grande? -
Esse poeta é um amigo meu, há anos que ele escreve para essa mulher. -
Disse com indiferença para criar mais expectativas dentro de Maria. -
Fala-me dele Luísa. - Pediu Maria. -
Pouco há a dizer sobre o poeta Maria. - Respondeu a Luísa. - Apenas que
é um grande amigo e que ama como poucas pessoas o sabem fazer. Por falar
em amor, nunca casaste Maria? O
olhar da Maria enebulou-se de tristeza e suas voz quase não se ouvia ao
responder.
-
Não Luísa. Em criança amei um homem, a vida separou-nos, mas ele vive
ainda cravado dentro de mim, eu jamais o conseguirei esquecer, eu jamais
quis outro homem. Ou um dia tenho-o a ele, ou não terei mais ninguém na
minha vida. - Um sorriso triste desenhou seus lábios, continuando -
Por isso a minha emoção ao ler esses poemas, pareceu-me que estava a
vê-lo, pareceu-me a nossa história. Mas.... loucura, não ligues, isso
são ilusões dum coração já muito sofrido. - Dizendo isso levou sua
mão aos olhos limpando uma lágrima. -
Minha amiga, o que eu daria para te ver feliz. - Disse a Luísa agarrando
na sua mão e brincando com essa lágrima rebelde que tirou das mãos da
Maria. -
Tenho que fazer algo, já não tenho dúvidas desse amor..., a Maria ama o
Pedro com a mesma intensidade que ele.
- Disse a Luísa para si mesmo. Ainda
estiveram falando mais uma hora, até que a Maria se despediu para
começar os seu primeiro dia de aulas como professora no Instituto. Onze
e trinta, a Maria acabou as aulas e sentiu-se realizada, sentia-se quase
feliz, estava tendo tudo o que pediu à vida, ela estava a dar-lhe a
coisas desejadas de mão beijada e a Maria nem queria acreditar que isso
se estava passando consigo. -
Tenho quatro turmas maravilhosas, receberam-me bem no Instituto, consegui
que me aceitassem e que passassem a ver em mim a amiga e não a
professora. -
Disse sorrindo feliz. No
dia seguinte lá foi para a academia, estava a adorar as aulas de
mergulho, os colegas eram seus amigos, ela sentia-se em paz a falar com
eles, um contava uma anedota, outro uma piada e havia aqueles que lhe
falavam meigamente, como se quisesses penetrar no seu coração, mas eles
desconheciam que esse já estava preenchido, esse já não tinha espaço
para mais ninguém, pois a imagem, as lembranças do Pedro o preenchiam,
não deixando espaço para mais nada, para mais ninguém.
Nessa
tarde enquanto falava com os seus colegas contou-lhes que tinha alugado
uma casa e perguntou-lhes se a ajudavam a montar a mobília do quarto,
depois dos homens a deixarem lá em casa, o que logo três se ofereceram e
combinaram que ela diria algo assim que a comprasse. A
Luísa as dezassete e trinta estava à porta da Academia para ir com a
Maria às compras, primeiro passariam pela casa das mobílias seguindo
depois à casa dos atoalhados, porque a Maria nada tinha consigo, para
poder habitar a casa e ela queria ir para lá com as mínimas condições
e sorte dela que para a cozinha não teria que comprar nada porque a casa
já estava com esses apetrechos todos que pertenciam à cozinha. -
Boa tarda Luísa. - Disse entrando no carro dela e apontando para a
barriga perguntou.- Como se porta o reguilita? - Sorrindo da expressão
que tinha utilizado. -
Boa tarde Maria, estou óptima, vai ser um bebé calmo, ando a sentir-me
tão bem, que me esqueço por vezes que estou grávida. - Dizendo isso
acariciou sua barriga sorrindo. Entraram
em duas lojas de mobílias, olhavam para elas e nenhuma lhes dizia nada,
até que ao passarem por uma loja a Maria deparou com um quarto simples,
mas lindo, a cabeceira da cama forrado com um tecido verde, idêntico aos
sofás e cadeiras da sala e a cómoda com pedra por cima. -
Luísa não vais acreditar, mas a mobília da sala é do género desta,
nunca vi coisa tão parecida, vamos entrar. Entraram
e logo se dirigiram à colaboradora da loja a perguntarem o preço. A
Maria achou caro, mas os seus olhos não se desviavam da mobília. Ela
conhecia-se bem, sabia que mais nenhuma lhe iria agradar.
A
colaboradora da loja vendo que a Maria não tirava os olhos da mobília
disse que faziam pagamento a prestações e que ela a levasse pois via-se
que era dessa que ela gostava. -
Maria pensa bem, nos dias que estamos hoje se não comprarmos as coisas as
prestações acabaremos por levar para casa aquilo que não gostamos. -
Disse-lhe a Luísa que tal como a colaboradora da loja via que a Maria se
tinha apaixonada por aquela mobília de quarto. -
Tens razão Luísa. Vou levá-la e aos poucos sem dar por isso eu tenho o
meu quarto pago. - Falou com a colaboradora da loja e combinaram que no
dia seguinte seria entregue no seu apartamento a mobília. Saíram
as duas radiantes da loja, dirigiram-se para outras lojas e quando a Maria
deu por si, tinha gasto muito dinheiro, mas estava feliz, ela ia ter a
casinha a seu gosto. Tudo tinha sido escolhido dentro da simplicidade, mas
com gosto, tendo a Luísa reparado que a Maria tinha um gosto requintado e
associou-a a Pedro, o seu amigo também era assim, coisas simples, mas com
gosto, tudo a condizer um com outro e marota sorriu com o seu pensamento. -
Não há dúvida que foram feitos um para outro, não me chame eu Luísa
se não os conseguir juntar. Pararam
numa pastelaria e foram lanchar, estavam exaustas e com fome, aquela
correria tinha-lhes aberto o apetite de tal maneira estavam felizes que
lancharam bem entre risos e conversas alegres. A
Maria à noite depois de chegar das aulas, deitou-se na cama sem sono,
pensativa. O seu pensamento estava fixo naqueles poemas, perguntava-se
continuamente quem seria aquele poeta, que escrevia tão bem, com tanto
sentimento, com tanto amor.
-
Como seria bom que esse poeta fosse
Pedro. Maria para com isso, amas o Pedro ou ele esta esquecido no teu
subconsciente, dando lugar a esse poeta? - Ao ouvir essa voz de dentro
de si enervou-se, porque a realidade estava presente, ela amava Pedro, mas
do seu pensamento não saiam aquelas palavras que tinha lido em casa da
Luísa, estava obcecada e a pensar nisso adormeceu, mas com um sono
agitado em sobressalto e sonhou com o poeta, com Pedro, uma mistura de
rostos de imagens, uma mistura de sentimentos. Acordou
de manhã cansada, abatida, lembrava-se do seu sonho e mais inquieta ficou
ao vir-lhe à ideia toda essa noite, seu corpo parecia que ardia em febre,
revoltada reclamou... -
Não posso continuar assim, a Luísa tem que me dizer quem é esse poeta,
não é normal uma poesia ter mexido com os meus sentidos, com os meus
sentimentos dessa maneira. Pensando
nisso, levantou-se da cama dum salto numa atitude agitada e resolveu
telefonar para a Academia a dizer que não se sentia bem e que nesse dia
não ia às aulas.... A Maria queria-se concentrar noutra coisa, para que
essas imagens fugissem da sua retina, do seu pensamento. Resolveu
passar por casa da Luísa porque ela precisava de falar com alguém, ir
até ao mar e de seguida iriam ver o seu apartamento e levar para lá as
coisas que tinha comprado na véspera. Se
bem o pensou melhor o fez e saiu de casa, parou na pastelaria da esquina,
tomou seu pequeno almoço, telefonou para a academia e seguiu para casa da
Luísa. Tocou
a campainha e a Luísa apareceu-lhe à porta ainda de robe. -
Que se passa Maria? Que estás a fazer aqui a estas horas? - Indagou a
Luísa com o semblante preocupado. |
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- Tens alguma coisa de importante para fazer hoje Luísa. - Perguntou a Maria com visível estado de ansiedade. - Hoje não vou às aulas, não
dormi bem, não me sinto bem e preciso da tua companhia, hoje não posso
estar só, entregue aos meus pensamentos, senão enlouqueço. -
Entra Maria, claro que vou contigo onde quiseres, até calha bem, porque
Sérgio hoje foi a Lisboa com um colega e só regressa á noite e ia-me
sentir sozinha. - A Luísa sorrindo disse: - Bruxinha adivinhaste que
hoje precisava de ti. -
Fazemos assim Luísa, vestes-te, vamos dar uma volta ao mar, bebemos um
café e vamos ao meu apartamento, para á tarde logo faremos planos, se
não podes estar só hoje, eu também não! - Batendo a mão na da Luísa
exclamou sorrindo. - Adeus solidão. Depois
da Luísa estar pronta entraram no carro, foram ao quarto da Maria buscar
as compras da véspera e seguiram em direcção ao mar, onde estiveram uma
hora e meia falando, em que a Maria abriu o seu coração e contou toda a
sua história desde a infância, falando do Pedro, do amor que sentia e
sempre sentiu por ele até aos dias de hoje. -
Agora que sabes a minha história Luísa... diz-me por favor... é normal
o que estou sentindo por esse poeta sem o conhecer? Sabendo que ele ama
outra mulher? Sabendo que eu amo Pedro, que o amei a vida toda? -
Sim Maria é normal, tu estas sensível, os poemas falam duma história
idêntica à tua, tudo isso faz sentido mexer contigo. -
Quem é esse poeta Luísa? Preciso de o conhecer.
-
Um dia conheces Maria. - Sorriu acrescentando. - Ele de momento não está
na terra, um dia apresento-o. A
Luísa não mentiu, pois o Pedro tinha ido com Sérgio a Lisboa e ela
falou de momento não está cá, portanto sua consciência não a acusava
de mentir. Depois
de terem recebido a benção daquele mar sagrado, depois das suas peles
terem sentido a pressão suave das ondas nos seus pés regressaram ao
carro. A Maria mais aliviada por ter partilhado algo seu com Luísa,
aquela sua nova amiga que apareceu na sua vida na altura que ela mais
precisava duma pessoa para desabafar, para lhe fazer companhia. Chegaram
ao apartamento de Maria e a Luísa reparou que era um prédio agradável e
tal como a Maria pensou que tinha a particularidade de estar virado para o
mar, o que já era agradável por si. Mostrou
todo o apartamento á Luísa que ficou encantada com o apartamento. Tudo
naquela casa estava a condizer e não faltando isso a Maria ainda escolheu
a mobília do quarto da mesmo estilo e cor. -
Maria vais-te sentir muito bem nesta casa. - Disse a Luísa maravilhada
com o que viu. -
Sim, estou farta daquele quarto onde não me posso mexer, onde tenho que
estar limitada apenas à minha cama. Se hoje pudesse ter avisado os meus
colegas eles viriam cá hoje montar-me o quarto, uma vez que vêem cá
hoje por a mobília e já hoje mesmo dormia cá.
-
Mas podes fazer isso Maria, vamos telefonar para a Academia, mandas chamar
um dos teus colegas e combinas para depois das aulas, porque o apartamento
está limpo. -
Sim, a senhoria mandou ontem limpá-lo, estava no contrato a primeira
limpeza, portanto é só ter onde dormir e mudo logo. Após
terem feitos alguns planos para a mudança de Maria, saíram e foram
telefonar para a academia, mas como a Luísa se lembrou do poema do Pedro,
insistiu com a Maria para irem lá almoçar a sua casa, assim aproveitava
e punha o poema na mala e deixaria no apartamento de Maria, quando
estivesse lá na confusão das mudanças. -
Não Luísa, hoje almoçamos fora. - Replicou a Maria. -
Olha Maria, eu ontem já tinha preparado a carne para o almoço de hoje e
se não a fizer estraga-se e como Sérgio chega tarde e tu hoje não tens
aulas à noite, arrumamos teu quarto após os teus colegas o terem montado
e vamos jantar fora, combinado. - Perguntou a Maria com um sorriso
matreiro. -
Combinado, levas sempre a tua avante. - Disse a Maria sorrindo. Seguiram
para casa da Luísa, fizeram o almoço e quando acabaram de almoçar já
eram duas da tarde e tempo de arrumar a cozinha e voltarem para o
apartamento da Maria pois os homens iriam lá entregar a mobília. Enquanto
a Maria acabava de arrumar a cozinha, a Luísa aproveitou e foi à gaveta
do armário donde retirou de lá o poema do Pedro, o último que ele tinha
feito para Maria, pegou numa rosa que estava num ramo da sala de Jantar e
colocou-a dentro da fita rosa que embrulhava o poema, escreveu um cartãozinho
dizendo " Espero-te no Sábado às quinze horas na praia, junto à âncora",
pegou num saco, guardou lá o poema e dirigiu-se à cozinha com um sorriso
nos lábios, sorriso esse que a Maria reparou perguntando-lhe: |
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